sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Champagne

Em complemento a uma postagem anterior, vou começar pelo final, ou quase, da nossa aventura eno-gastro-turística pela Europa (a última visita a um ícone enológico, a cave de Legrand Filles et Fils aconteceria no dia seguinte), passando a relatar nosso passeio-de-um-dia à região de Champagne.


Ah, Champagne!
Terra sofrida, salpicada de lembranças de duas grandes guerras que assolaram estes extensos campos ora verdejantes. É verão e a colheita se inicia, o cheiro de uvas no início da fermentação está invadindo os villages.
Desta vez, marcamos visita na Pommery, uma casa fundada em 1836 e "tocada" por Madame Pommery, herdeira de um dos fundadores. Senhora com forte influência britânica e ótimo tino comercial, moldou a sua maison conforme a arquitetura bretã vigente na época e moldou o champagne - até então um líquido melado, insosso e enjoativo, que só tinha graça por causa das bolhinhas que faziam Dom Pérignon sentir estrelas no céu da boca - no néctar que hoje conhecemos. Pois é... foi Madame Pommery que inventou o champagne brut e o difundiu no mercado.
Chegamos à visita exatamente no horário marcado, mas como a recepcionista se embananou para atender o casal que estava à nossa frente, perdemos a visita em francês e tivemos que esperar mais meia hora para acompanhar uma visita em inglês (não tem o mesmo charme...).
Logo na entrada, "Le Grand Foudre d'Emile Galle" recepciona os visitantes. Um enorme fût de carvalho húngaro de 75.000 litros, um dos maiores do mundo, fabricado em 1904, por ocasião da exposição universal de Saint-Louis, Missouri, EUA. Pois é, despacharam um barrilzão destes cheio de champagne para os EUA de navio! Curiosíssimos os entalhes elaborados no barril: uma jovem represenatndo a França serve uma taça de Pommery à outra jovem, simbolizando a América, representada por um... índio! Sarcásticos, esses franceses... tudo sobre esculturas de parreiras sobre a paisagem de Reims.


Pontualmente às 10h30 Mademoiselle Cristine nos chamou, mais um comerciante francês e um casal de Hong Kong, para fazer a visita à cave. Ao todo, são 18km de corredores subterrâneos! Quase tudo escavado pelos romanos, que utilizavam as pedras calcárias nas suas construções, e depois aproveitado para armazenar milhões de garrafas de champagne (a cada ano, entram nessa cave 3 milhões de garrafas, em média). O choque térmico é tremendo e nós, idiotamente surpreendidos (pois já conhecíamos de outrora a temperatura das caves champenoises). Cerca de 27, 28oC no exterior, cerca de 12, 13oC a 15m de profundidade.


Mme. Cristine nos mostrou curiosidades das caves: as esculturas no calcário, os estoques das cuvés de prestige em Jeroboam, Mathusalem e Salmanazar - 3, 6 e 9 litros, que chegam a custar 700 euro a garrafa - os corredores com os nomes das cidades para as quais a champagne Pommery era exportada nos tempos de Madame Pommery (o corredor de Buenos Aires era pequenininho...), e uma última cave que ainda contém umas garrafas do primeiro champagne brut de que se tem notícia. Todas essas informações entremeadas com explicações sobre o processo de fabricação do champagne, com as usuais exposições sobre a remuage, a retirada do "bouchon" de leveduras através do congelamento do gargalo, licor de expedição, etc...

Para terminar a visita, obviamente, uma degustação. Experimentamos a brut royal, básica, bastante fresca e com aroma marcante de fermento. A brut millésime 04 já demonstra mais fruta, é mais complexa; a rosé, corte de pinot noir e chardonnay (os vinicultores de outras regiões ficam loucos com essa permissividade na champagne) demonstra firmeza, tanto que deve servir bem para acompanhar comida à mesa. A "extra-dry", que seria assim uma "demi-sec" não me pareceu nem prá lá, nem pra cá, ou seja, nem tão seca para aperitivo nem tão doce para sobremesa. Na boutique, acabei comprando uma garrafa da rosé, uma "Pop", embalagem de 200ml em edição especial, que minha mulher achou bonitinha para enfeitar a nossa prateleira de bebidas, entre outros badulaques.


Para concluir nosso passeio em tão bela região, nada como um belo almoço no centro de Reims, no Cafe do Palais. Embalados por um ótimo chassagne-montrachet "village" comemos tagliateles au foie gras et morilles à la crème, simplesmente fantástico!


Depois, passeamos pelo centreville e pela fenomenal catedral, toda esculpida em pedra pelos companheirinhos de séculos atrás. Assim, encerramos em alto astral e com as bênçãos dos céus mais este dia maravilhoso.

Depois eu volto com mais postagens sobre a Champagne, Bourgogne, Bordeaux, Paris (affff... dias memoráveis!!!)

Até a próxima. Santé!

P.S.: depois de postar o texto acima, li em um livro sobre o champagne:
"Nada sobre o champagne, entretanto, é simples e direto: sua história é cheia de ironia (...). Precisa-se de um solo pobre para produzir bom champagne; usam-se uvas pretas para fazer vinho branco; um cego via estrelas; o homem que dizem ter colocado bolhas no champagne na verdade trabalhou a maior parte da vida para eliminá-las."
Don & Petie Kladstrup. Champagne - como o mais sofisticado dos vinhos venceu a guerra e os tempos difíceis. Belo livro!

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