domingo, 23 de outubro de 2011

Bordeaux

Salut, mes amis!
Minha segunda viagem a uma região vinícola famosa foi no verão do ano passado.
Passamos uns dias em Madri, tomamos um TGV até Barcelona, onde alugamos um carro para ir à França. Depois de ficar uns dias em Carcassone, uma cidadela medieval verdadeiramente fantástica, fomos para Bordeaux, onde nos hospedamos por três dias.
Dizem que seu nome vem da expressão "au bord de l'eau" (na beira d'água). É mesmo uma cidade encantadora, principalmente para os amantes de vinhos. A estrada de Toulouse a Bordeaux já fora um bom presságio: ela atravessa um verdadeiro mar de vinhas, esporadicamente entrecortado por pequenos bosques e lindas plantações de girassol. O clima é ligeiramente temperado devido à proximidade do Atlântico, a umidade permanentemente entrando no continente pelo estuário do Gironde, rio formado pela união de la Dordogne com la Garonne, que acontece bem próxima à cidade (os rios são "femininos" em francês - cheios de curvas e mistérios...). O Garonne sozinho já é um rio bastante caudaloso na altura de Bordeaux e evidencia bastante esta sensação de umidade. A temperatura, mesmo no verão não estava muito alta (em torno de 22oC), mas o tempo parecia muito abafado.

Plantações de girassol ao longo da A6
Vista da Pont de Pierre sobre la Garonne, a partir do Quai du Marechal Lyautey
Bordeaux é a capital da região da Aquitaine (Aquitânia - nome que a região recebeu durante a ocupação romana no séc. I) e do département de Gironde, e tem cerca de 250.000 habitantes. Junto com Arcachon e Libourne, forma a sexta região metropolitana francesa, com cerca de um milhão de habitantes. É a maior região vinícola em termos econômicos no mundo.
A região pertenceu à coroa inglesa do séc. XII ao séc. XV, devido ao casamento da duquesa Eleonor de Aquitânia com o Rei Henrique II. Já nessa época a produção de vinhos ali era importante e o comércio com os ingleses difundiu o claret (que é como os ingleses chamam o bordeaux tinto até hoje) pelo mundo conhecido até então. Durante algum tempo a Aquitânia gozou certa independência, mas no séc. XVII o rei-sol Luís XIV a anexou à coroa francesa. O século seguinte foi a era dourada de Bordeaux - seu prefeito, o barão Haussmann, empreendeu uma extensa reurbanização da cidade que, com mais de 5.000 edifícios, pontes e outras obras públicas construídos nesta época (muitos dos quais ainda remanescentes) a tornou uma cidade-modelo, inclusive para a capital Paris.

Vista da Place de la Bourse a partir do Miroir d'Eau - um belíssimo espelho d'água onde os girondins vão se refrescar
Monument aux girondins, na Esplanade des Quinconces
A produção vinícola nos arredores de Bordeaux floresceu de fato no séc. XII, após o casamento da duquesa com Henry Plantagenet. No Séc. XIV, metade do vinho ali produzido ia para a Grã-Bretanha; até então, os vinhedos ficavam na região de Haut Pays, ao leste da atual appellation Bordeaux - até o séc. XVI grande parte do Médoc (exceto châteaux já de prestígio, como Margaux e Lafite) era formada de terrenos pantanosos. No séc. XVII, engenheiros holandeses instalaram diques de drenagem e organizaram o plantio de vinhas em todo o Médoc, viabilizando a região como a conhecemos atualmente.
No século seguinte, comerciantes estrangeiros (britânicos, holandeses, alemães e dinamarqueses) dominavam o comércio de vinhos em Bordeaux. Se no resto da França a viticultora desenvolveu-se sob a batina de monges pacientes, em Bordeaux as vinhas cresceram pelo investimento de comerciantes hábeis e ávidos pela exportação do seu produto.
Em 1855, por ocasião da Exposição Universal em Paris, a Câmera de Comério de Bordeaux organizou uma classificação, válida até hoje, que contemplou os vinhos dos grandes châteaux da margem esquerda do Gironde (Médoc, Graves, Pauillac, Pessac-Léognan...). Esta classificação lista as propriedades em 5 níveis - do premier ao cinquième - grand crus. A única alteração desta classificação desde então foi a promoção do Château Lafite-Rotschild de deuxième para premier grand cru classé, em 1973. Já os vinhos doces de Sauternes e Barsac, também na margem esquerda, foram classificados em Cru Supérieur (o Château d'Yquem somente), Premiers Crus e Deuxièmes Crus. Atualmente, apelidaram-se as boas propriedades que não figuram na "classificação" como crus burgeois. Depois desta classificação, apenas em 1955 surgiu uma classificação na margem direita, em Saint-Émilion. Outras appellations, como Pomerol, não hierarquizaram seus vinhedos.
Mapa das appellations bordalesas
Ao longo do tempo Bordeaux produziu muitos mitos. Muitos deles aclamados, como Émile Peynaud, professor da Universidade de Bordeaux, considerado o "pai" da enologia moderna; outros, contestados, como o enólogo Michel Roland, o "pai" dos flying winemakers, enólogos que prestam consultoria em inúmeras vinícolas ao redor do mundo, obtendo resultados muitas vezes controversos. Em Mondovino, filme-documentário do diretor-somellier Jonhatan Nossiter, Roland chega a ser ridicularizado por sempre propor a mesma solução aos vinicultores, visando sempre obter o mesmo resultado que - seria mera coincidência? - certamente agradará ao seu amigo Robert Parker, que não raro concede notas altíssimas em vinhos por ele elaborados na WIne Advocate (Roland é enólogo-consultor também no Brasil, atuando na Miolo).
Infelizmente, devido às atribulações e correrias normais da vida, e tendo em vista o pouco tempo que ficaríamos em Bordeaux, eu não me preocupei muito em organizar um roteiro para visitar a cidade e os arredores. Conhecemos os pontos turísticos do centreville, fizemos algumas compras (entre elas algumas garrafas do segundo vinho de châteaux premiers crus por meros 60 euros) e passeamos um pouco de carro quando saímos para visitar um grande château de Saint-Émilion, mas aí já é assunto para outro post.
Santé! Au revoir!

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