domingo, 23 de dezembro de 2012

E que venha 2013!

E para um ano que ia dar vez ao fim do mundo, 2012 até que não foi mal!
E eu escrevo este post em agradecimento.
Primeiramente, porque o ano me trouxe meu segundo filho, que junto com a irmãzinha - que está a cada dia mais mocinha e mais linda - e a patroa, sempre maravilhosa, formam a família mais linda e amada do mundo! Pessoalmente, foi tudo muito bem - em casa, no trabalho e na saúde. Nada a reclamar!
Em seguida, neste ano que passou pude me dedicar bastante a este "hobby" que nos une, a apreciação do elixir de Baco. Li muito: Jancis Robinson, Hugh Johnson, Oz Clarke, guias, Larousses, Jorge Lucki, Luiz Horta, não perdi um número da Adega ou da Wine Spectator. Acompanhei também com assiduidade os blogs dos amigos mais experientes no assunto. Fiz cursos - SBAV, WSET. Fui a feiras e degustações - Expovinis , Encontro de Vinhos e Encontro Mistral (sempre que me lembro disso me vem à boca o Hermitage La Chapelle do Paul Jaboulet Ainé que degustei na ocasião). Até fundamos uma confraria, e tivemos três ótimas reuniões temáticas: Itália, Espanha e Brasil. Ganhei presentes espetaculares, que deixaram minha cavezinha muito valorosa. Experimentei muitas coisas novas, os ótimos champagnes da Hedoniste, os grandíssimos borgonhas do Château des Vilars-Fontaine apresentados pelo Jean Claude Cara em um curso promovido pela VinhoClic, as novidades das francesas Cave Jado e Chez France, tomei gosto por xerez e porto... enfim, tanta coisa que nem dá para enumerar. 
Sinceramente torço que 2013 fortaleça as amizades criadas neste mundo enófilo durante o ano que passou. Agradeço muito aos amigos que acompanharam estas mal escritas linhas rabiscadas por este pretenso blogueiro iniciante. A participação e colaboração de todos através de comentários e compartilhamentos nas redes são o incentivo para continuar.
Trinquons, mes amis!
Às nossas casas, ás nossas famílias, aos nossos amores! 
Que tenhamos um santo Natal e que em 2013 o Grande Arquiteto nos abençoe com muita saúde para continuarmos trilhando nosso caminho neste mundo que ainda vai longe! Que tenhamos oportunidade, tempo e disposição para ler bons livros, beber bons vinhos, ter boas conversas e nos relacionar com boas pessoas. Além de educar bons filhos, que é o que deixaremos para este mundo.
Santé!!!

 





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Curso de Vinhos da Bourgogne na Enoteca Saint Vinsaint

Salut, mes amis!
No último dia 30 de novembro estive em um curso sobre vinhos da Borgonha, ministrado por Jean Claude Cara e organizado por Fabio Barnes, da VinhoClic. A palestra, de 3 horas de duração, foi entremeada por degustação de vinhos e ao final foi servido o jantar. Aconteceu na Enoteca Saint Vinsaint, no Itaim, lugar simpatissíssimo que eu prontamente me arrependi por ainda não tê-lo conhecido antes. A Enoteca é dirigida pela chef Liz Cereja e seu marido Ramatis Russo, experiente e reconhecido sommelier da paulistânia.
Jean Claude é um franco-brasileiro que transita entre a enologia, a gastronomia e o eno-turismo, dividindo seu tempo entre a Borgonha e o Brasil. Já teve um bistrô no Brasil e ultimamente trabalhava como chef em Beaune. É o enólogo-consultor do Éléphant Rouge, vinho "de boutique" produzido pela Larentis no Vale dos Vinhedos e atualmente é um produtor associado do Château de Villars Fontaine, nas Hautes Côtes de Nuits, lá possuindo uma parcela de vinhedo. Membro do bureau de vinhos da Borgonha, instituição que tem por objetivo zelar pela manutenção da tradição e da qualidade dos vinhos borgonheses. Em paralelo, desenvolve roteiros eno-turísticos e acompanha grupos em visita à Côte d'Or e adjacências.
Enfim, a respeito da qualidade deste curso, após a apresentação deste curriculum, acho que não preciso falar mais nada. Compacta, porém didática e bem ilustrada, a palestra consegue transmitir um pouco da riqueza que é o terroir bourguignon e deixar os espectadores com água na boca e  sede de saber mais. Pois segundo o próprio Jean claude, uma vida é pouco para se conhecer a fundo a Borgonha...
Mas o que mais chama a atenção no discurso de Jean é a seriedade com que o autêntico vinhateiro bourguignon busca manter a verdadeira e antiga tradição da sua terra, a primeira a desenvolver a ciência da vinificação com os monges na Idade Média. Isso em uma época de dificuldade financeira, busca de lucro rápido e globalização - já tem chinês comprando propriedades na Borgonha também - parece uma tarefa hercúlea. Diversas vezes ele destacou que regiões como Bordeaux e Champagne se renderam às especulações comerciais e isso é o que querem evitar os tradicionais borgonheses, tão ciosos de sua terra e de seus costumes. Inclusive Beaujolais foi excluída oficialmente da região da Borgonha, por este motivo. Seus conceitos, tão diferentes daqueles que a gente escuta por aqui, muitas - senão todas - das vezes baseadas nestas mesmas relações comerciais, nos faz ao menos parar para refletir um pouco. Por exemplo, enquanto por aqui não raro ouvimos que a qualidade de um vinho está relacionada com a qualidade e quantidade de madeira nova em que ele é vinificado, segundo o método ancestral borgonhês a madeira serve apenas para aparar as arestas e não deve aparecer no resultado final. Segundo ele, madeira em excesso certamente está escondendo um defeito grave do vinho, assim como fruta em excesso logo no primeiro nariz, muitas vezes "artificialmente" obtida.
Saí deste curso com uma certeza: preciso muito rever muitos conceitos.

O primeiro vinho degustado foi este Chablis Premier Cru "Fourchaume" '06.  De um branco dourado, como de se esperar bastante mineral, mostrou também frutas cítricas, abacaxi, muito fresco, corpo e final médios.
O segundo foi este communale Mersault, que  demonstrou aroma floral, de frutas cítricas, um pouco de mel e baunilha.
Este Pommard de um rubi muito claro demonstrou frutas vermelhas, destacadamente framboesa  e couro. Muito equilibrado com taninos muito finos.
Quanto aos vinhos do Château de Villars Fontaine, propriedade dirigida por Bernard Hudelot, maior autoridade francesa nos estudos do vinho em relação à saúde, os amigos me permitam uma série de licenças poéticas, pois traduzir em palavras as sensações despertadas é impossível - passarei por mentiroso ou ao menos exagerado! Tamanhas as nuances demostradas pelos vinhos, que às vezes parecem até contraditórias. Estes vinhos produzidos à l'ancienne tem como característica uma maturação prolongada - cerca de 28 dias - e a qualidade obtida compensa o risco que o vinhateiro corre por optar por este processo.
O pinot noir "Les Genévrières" '02 demonstrava uma bela cor rubi clara, muito límpida e transparente e não apresentava o mínimo sinal de evolução. Após a aeração o vinho explode em aromas que eu só consigo traduzir me imaginando na Côte d'Or, em uma manhã ensolarada, sentindo o cheiro das frutas no pé e da terra molhada. Embora elevado por 36 meses em barricas novas, não há traço de madeira no nariz ou na boca. A madeira tem a serventia  de arredondar o vinho, que apresenta taninos muito afinados (os taninos são bem presentes devido à longa maceração, e junto com a ótima acidez proporcionam este vinho, de longuíssima guarda com certeza). Ouvi en passant um comentário de Ramatis para Jean Claude sobre o vinho: "esse é uma obra-prima".

Pinot noir "Les Genévrières"
O mais surpreendente veio em seguida: um gamay "du Futur", safra 2003, de uma belíssima cor rubi-púrpura, vivíssima e muito límpida, ainda sem halo de evolução. Este gamay é elevado por 48 meses em barricas novas, sendo que no segundo ano as barricas são trocadas (200% barricas novas!). Segundo Jean Claude, seria necessário morrer e nascer de novo para verificarmos o envelhecimento deste vinho. Disse ainda que o vinho leva este nome pois, baseado em estudos climáticos, sabe-se que a cada 400 anos aproximadamente há um ciclo no aquecimento global e antigamente havia na Borgonha o revezamento do plantio da gamay em épocas mais quentes e pinot noir em períodos mais frios. Espera-se que nos próximos séculos a gamay volte a ser a estrela na região. Para quem não acreditava na longevidade desta cepa e sua capacidade de gerar grandes vinhos...
Se ao provar o pinot noir eu já me senti teletransportado às encostas douradas da Borgonha, com este vinho, então, me senti no interior de uma daquelas tradicionais lojinhas de geléias e cremes de frutas no interior das Hautes Côtes, onde tem sempre um tacho fumegante repleto de cassis, framboesas, amoras ou mirtilos apurando no fogo. Os aromas de frutas do bosque e do bosque em si, geléias de frutas, indescritível... o vinho ainda muito jovem, que certamente ainda despertará muitos aromas terciários, mostra ao mesmo tempo corpo e redondeza, os taninos bem extraídos mas arredondados pela elevagem que não deixa rastro da madeira... Pour amour du ciel!
Gamay du Futur
Esses dois tintos acompanharam o prato principal servido, um boeuf bourguignon, enquanto que para a harmonização com o queijo servido na sobremesa (um manchego meio curado, na indisponibilidade do comté, que seria o ideal) foi servida a estrela da noite, um chardonnay "Les Jiromées", de uma parcela nas Hautes Côtes a qual já solicitou a qualificação de cru no INAO (um processinho destes dura anos...).
Já nem digo que foi surpreendente, porque depois dos dois últimos, podíamos esperar tudo! Este vinho é vinificado em barricas, onde fica por 24 meses. De cor amarelo palha, apresenta aromas cítricos, mas também de frutas brancas, maçã, pera, pêssego, noz, macadâmia, de vegetais frescos, como aspargo e alcachofra, mel... na boca é fresco, mas é também untuoso, tem ótima acidez e corpo, equilibradíssimo, tem um final longuíssimo... Jean disse que este vinho venceu degustações à cegas como famoso montrachet. Eu não conhecia um vinho tão grande, apesar de ter provado ótimos Corton Charlemagne, Mersault, Puligny-Montrachet e outros Côtes de Beaune quando estive na Borgonha. E só agora entendo perfeitamente o siginificado do termo "complexidade" em uma análise sensorial.

"Les Jiromées"

Como disse anteriormente, talvez tenha passado por exagerado ou mentiroso, mas como diz um texto que está rolando pela net, creditado ao grande Luís Fernando Veríssimo: "Já disse mais bobagem sobre vinhos do que sobre qualquer assunto (...) Isso porque é impossível transformar em palavras as qualidades ou defeitos de um vinho, ou as sensações que ele provoca, assim como é impossível, por exemplo, descrever um cheiro e um gosto. Tente descrever o sabor de uma amora. Além de amplas e vagas categorias, como "doce", "amargo", "ácido", etc., não existem palavras para interpretar as impressões do paladar. Estamos condenados á imprecisão ou ao perigoso terreno das metáforas. Tudo é literatura."
Então termino ao menos com uma boa (ótima) notícia: em abril os vinhos do Château de Villars Fontaine devem estar disponíveis no Brasil, por um preço menor que imaginam.


Os donos da festa

Santé, mes amis!

domingo, 18 de novembro de 2012

Drouhin Beaujolais Nouveau 2012

Salut, mes amis!
Eu gosto do Beaujolais, e daí?
Não só dos crus e dos villages, do nouveau também!
Quantas vezes já não vi enófilos "sérios" ironizando o Beaujolais "suquinho de uvas" dizendo se tratar de um vinho que se vale apenas de marketing para continuar vendendo. Eu valorizo mais esse pessoal, que se vale do marketing/publicidade para manter viva uma verdadeira tradição que é o Beaujolais Nouveau do que outros produtores cuja meta é copiar Bordeaux e ter uma boa nota RP.
Cada vinho é ideal para uma ocasião. Como diz Oz Clarke, se você se imagina ereto numa cadeira, de terno e gravata, saboreando um ótimo jantar, certamente estará tomando um Bordeaux. O Borgonha te permite tirar o paletó e afrouxar a gravata. O Beaujolais, então... Esse você pode tomar descalço!
Por isso, pra mim que estou na praia, não há vinho (tinto, digo en passant) melhor que um Beaujolais Nouveau, bem fresquinho e refrescado para acompanhar as pizzas que a gente tem feito por aqui, bem como o papo furado em volta da mesa!
E viva o Beaujolais!!!
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Beaujolais é uma região ao sul da Borgonha, entre o Mâconnais e o norte da cidade de Lyon; oficialmente faz parte da região borgonhesa, embora já pertença geograficamente ao département do Rhône e não tenha tanta semelhança física ou até mesmo cultural com a Côte d'Or. Nesta região praticamente só se planta gamay, cepa "proscrita" no restante da Borgonha desde a Idade Média.
A região, composta ao todo por 60 comunas, é dividida em 3 appéllations: a AOC Beaujolais cobre todo o território e faz a distinção Beaujolais Supérieur para os vinhos de maior teor alcoólico. A AOC Beaujolais-Villages abrange as 39 comunas da porção norte da região, com sub-solo granítico, que produzem vinhos com uma qualidade média melhor que o sul, de solo calcáreo. Dentro da região norte encontram-se as dez comunas autorizadas a dar seu nome ao vinho - os crus do Beaujolais: Saint-Amour, Juliénas, Chénas, Moulin-à-Vent, Fleurie, Chiroubles, Morgon, Régnié, Côte-de-Brouilly e Brouilly.
Nesta região se utiliza um método peculiar de fermentação carbônica para se vinificar a gamay, chamado de macération beaujolaise traditionnele, no qual os cachos são colhidos à mão e lançados inteiros em uma cuba fechada hermeticamente. O peso próprio das uvas esmaga os cachos que estão mais abaixo, liberando o sumo e iniciando a fermentação. Quando a cuba atinge certo nível de calor e pressão, o gás carbônico passa a penetrar as uvas que ainda estão inteiras e as fermenta internamentem. Esta maceração tem a finalidade de extrair o máximo de cor e aroma dos bagos de gamay, cuja principal virtude é seu aroma frutado e suculento. Terminada esta etapa, as uvas são prensadas e ocorre uma segunda fermentação, desta vez provocada pela adição de leveduras. Os grandes e modernos produtores utilizam sistemas de refrigeração do mosto para obter vinhos mais frescos e furtados, enquanto que os pequenos e tradicionais preferem conduzir o processo em temperaturas mais altas para privilegiar a extração de cor e taninos, dando mais estrutura ao vinho. Enquanto os Beaujolais nouveaux são imediatamente engarrafados e postos à venda (a tradição é que na 2.a quinta-feira de novembro o vinho já esteja disponível nos bouchons - os botecos - de Lyon), os villages e os crus são elevados por uns 10 meses em barris de carvalho. Enquanto os nouveaux devem ser consumidos imediatamente, os outros Beaujolais passam bem uns 2 anos na garrafa, com exceção dos crus, que envelhecem bem de 3 a 7 anos.
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Em relação ao vinho que deu origem a este post, neste ano a publicidade da Mistral destacava que devido às condições climáticas no vinhedo, ocorreram as millerands, numerosos bagos minúsculos nos cachos de gamay, o que acabaria resultando num vinho mais fresco, elegante, denso e complexo.
De fato, na taça o vinho apresenta uma cor bem densa, com os característicos reflexos violeta. Nariz também típico de fruta vermelhas frescas, florais e um fundindo de banana. Na boca, o gostinho de tutti frutti, bubaloo de frutas vermelhas (lembram?) e desta vez percebi também alguma coisa a mais, parecido com figo maduro.
É um vinho simples na melhor concepção da palavra, como disse acima, ideal para acompanhar uma roda de bate-papo. Muito souple, como dizem os franceses, que sempre recomendam um ou outro Beaujolais para acompanhar seus pratos típicos - sempre tem um tipo que harmoniza bem com charcuterie, porco, chucrute, cassoulet e a onipresente soupe à oignons. Estou iniciando muita gente que a principio não gostava de vinho tinto com os Beaujolais, e eu acho que é esse o espirito da coisa.
Como dizem os franceses: um copo de Beaujolais nouveau violeta, de uma safra madura e bem feita, deixa ensolarado até os mais tristes dias de novembro...
Santé!

domingo, 11 de novembro de 2012

Com este calor, nada como um sauvignon...

Salut mes amis!
E fechamos hoje com chave de ouro a semana do sauvignon blanc! Digo isso porque aproveitei o calorão desta semana aqui em SP para experimentar três sauvignons que tinha aqui na minha adega.
O primeiro foi um chileno, o Ventisquero Yelcho '11 que o simpático Celso do Empório D'Vino aqui de Santo André me indicou. Nada pretensioso, depois de gelado cumpriu bem o papel de refrescar o calor e foi sorvido com sofreguidão. Aromas cítricos e vegetais - "grama cortada" - muito leve e fresco, como era de se esperar de uma linha básica de um bom produtor.
O próximo sauvignon ansiado por um longo dia e saboreado com prazer à noitinha foi um Cheverny Les Vieux Clos '10 do Domaine du Salvard, irmãos Dellaile, do Loire, pertinho de Blois, cidadezinha do famoso castelo. Na verdade este vinho é um corte de 85% sauvignon e 15% chardonnay. De uma bela e delicada cor amarela clara com reflexos verdeais muito límpida e brilhante. Com aromas florais e cítricos, de maçã verde. Na boca é muito delicado, leve, com uma acidez muito apetitosa; abriu também aromas de maracujá, vegetais - "grama cortada" - e "xixi de gato", que os anglófonos tem o bom costume de chamar de "cat box". Tudo conforme o esperado, com boa complexidade. Final médio, muito refrescante. Acompanhou muito bem uma quiche de queijo. Ótima pedida em sauvignon. Este me foi indicado pela somellière do La Régalade, enquanto fazíamos o curso da Wine & Spirits. Me lembro de ter tomado outros bons sauvignons com este nível de complexidade provenientes de Sancerre (Raimbault, Saget, Jolivet) e  e Marlborough (Vicar's Choice é um que me lembro bem).
O último sauvignon da semana foi um Arrogant Frog '10 de Jean Claude Mas, um IGP Pays d'Oc produzido em Pézenas com uvas provenientes do vale do Aude, um lugar a principio muito quente para a sauvignon (opa! novidade!). Produzido pelo domaine Paul Mas, com a "pretensão" de não ser um vinho sério, tanto que seus produtores o recomendam em seu blog como parte do kit de sobrevivência do francês no deserto de Mojave (!?). Um vinho amarelo com reflexos esverdeados, aromas cítricos, de lima, maçã e minerais. Na boca confirma a maçã, goiaba branca... Não é tão frutado quanto os sauvignons de clima mais frio, mas tem um pouco mais de corpo, é mais "gordo". A acidez é muito bem equilibrada com os 12,5% de álcool e a fruité. Este aqui acompanhou com muita propriedade um risoto margherita (e que risoto!) que a patroa fez, assim como meu saint peter à belle munière. Talvez até fosse mais adequado um vinho mais encorpado para acompanhar esta comida, mas como este sauvignon possui até umas características de chardonnay de clima quente... Caiu muito bem, talvez pela boa acidez que enfrentou o arroz cremoso e o peixe com molho oleoso... Mais um bom vinho do SudOuest de France pra anotar no caderninho.
O risoto da patroa, meu peixe e o vinho do sapo
Bem, resumindo, por grau de complexidade e tipicidade, aquele que eu mais gostei foi o Cheverny, em seguida o Arrogant e por último este Ventisquero - nada contra sauvignons chilenos, muito pelo contrário! Já provei alguns fantásticos, como os Amayna e o Casa Marin. Mas aí já é outra história... Mas também pode-se dizer que todos estes três aí de cima tem boa relação preço/qualidade, posto que o Yelcho custa praticamente a metade do Arrogant Frog, que por sua vez é mais barato que o Les Vieux Clos.
Trinquons, mes amis! Santé! 
À bientôt!

domingo, 7 de outubro de 2012

Primitivo di Manduria Luccarelli

Salut!
Nesta semana eu abri um Primitivo di Manduria, o Ampelo safra 2010, do produtor Luccarelli, localizado lá no salto da bota do mapa da Itália.
Eu já havia provado o Pazzia 2008, o "irmão rico" de primitivo do mesmo produtor, no primeiro encontro de uma confraria ainda sem nome que pretendemos fundar aqui em Santo André. Este é um ótimo vinho, denso, complexo, estruturado, carnudo - como seria de se esperar de uma uva como a primitivo (chamada de zinfandel pelos californianos), conhecida pela excelente maturação em climas quentes, que resulta em muita cor, açúcar e álcool. Possui aromas de geléias de frutas e ameixas secas, fumo com chocolate e café. Bem quente, mas com taninos e acidez bem equilibrados, traz uma sensação de doçura na boca mas sem enjoar. Na ocasião acompanhou um nhoque de abóbora com ragu de cordeiro muitíssimo bem.
Então, porque não encarar o irmão mais modesto? Por praticamente a metade do preço, o Ampelo demonstrou uma menor complexidade, o que me faz deduzir ao menos que ele passa menos tempo em barrica que o Pazzia. Mas os aromas estavam todos lá, não com a mesma intensidade, mas posso dizer que este é uma boa pedida para acompanhar algum prato mais substancioso da culinária italiana. Desta vez, encarou com gabardia um rigatoni com ragu de ossobuco. Redondo, carnudo, é uma ótima opção para quem gosta deste estilo de vinhos (principalmente encontrado no novo mundo), mas que já enjoou das versões mais açucaradas e sem acidez dos carmenères mais corriqueiros.
Manterei sempre uns primitivo Luccarelli na minha adega, ainda mais eu, que adoro uma comidinha italiana.
À la votre, mes amis!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Alemão inusitado

Salut, mes amis!
O bonito aí de baixo foi um presente de um amigo - um grande amigo, acrescento, pois se lembrou de me comprar um presente mesmo estando em lua-de-mel na Europa. Trata-se de um Domina trocken 2010 Volkacher Kirchberg do produtor Andreas Braun, da região de Franken, ou Francônia, no norte da Baviera.
Pesquisando arduamente no Google e gastando o meu alemão no Tradukka ;) descobri que a domina é uma uva tinta proveniente do cruzamento de pinot noir com uma cepa chamada blauer portugieser desenvolvida no instituto Geilweilerhof e que apresenta maior resistência que a pinot resultando em vinhos muito escuros, talvez pelo parentesco português, uma vez que sabemos que os vinhedos alemães não recebem tantas horas de sol para produzir uvas muito maduras. Tal instituto agrícola é alvo de alguma controvérsia na Alemanha, pois vem desenvolvendo cepas de carga geneticamente modificada, mas com o nobre objetivo de diminuir e até mesmo eliminar o uso de fungicidas na vinha. Quanto a esta outra casta de suposta origem portuguesa, o máximo que consegui encontrar é que ela deve ter chegado à Alemanha através da Áustria, vinda do Porto no século XVIII. Tanto quanto a casta, também achei inusitado o formato da garrafa (as garrafas tradicionais de 75cl deste produtor possuem a mesma forma).
O fato é que agora fiquei curioso e ansioso para degustar tintos alemães, um território até então inexplorado por mim. Aceito sugestões dos amigos tedescos.
À bientôt, mes amis!

domingo, 30 de setembro de 2012

Nos vinhos, a beleza também está na simplicidade

Salut mes amis!
Também respondo à clássica questão "o que é um bom vinho?" com a resposta de que depende do momento e da companhia quando ele é bebido.
Minha mais nova constatação aconteceu hoje, com um Côtes du Rhône 2002 simplezinho que achei esquecido em uma caixa de papelão no meu depósito, junto com outras garrafas não mais famosas nem menos idosas do que esta.
Desde que meu menino nasceu minha casa tornou-se o ponto de encontro de parentes e amigos, então sempre temos muitos acepipes por aqui para receber as visitas ao bebê. Daí minha escolha por esse vinho: hoje tínhamos pães, queijos, patês, frutas secas, embutidos e geléias e achei que um Rhône combinaria com tudo, embora estivesse apreensivo pela idade do vinho, a fruta já deveria ter ido embora... Mas vá lá, eu não queria nada pretensioso mesmo.
Mas a certeza veio logo na abertura da garrafa: ao cheirar a rolha já fui teletransportado ao Sul da França pelos aromas de especiarias que o vinho exalava. Lembrei dos campos de girassol, dos vinhedos e das feiras em que ervas e outros produtos da terra são vendidos em bancas na rua. Na taça uma cor rubi profunda com um belo halo bem acastanhado confirmava a idade. Na boca, o vinho redondo, macio, agradou até quem não costuma beber por achar que eu só abro vinhos "secos demais". A garrafa secou quase que instantaneamente em meio à boa conversa e aos trabalhos de mastigação. Um momento agradável em família, com um papo descontraído e uma comidinha gostosa fizeram o vinho crescer demais.
Para mim, foi uma bela surpresa que só fez confirmar a máxima da resposta à clássica pergunta. 
À votre santé! À bientôt!

sábado, 22 de setembro de 2012

Languedoc-Roussillon, Sud de France: uma terra apaixonante

Salut, mes amis!
Há algum tempo eu venho tentando achar oportunidade para postar sobre este tema, e neste momento em que teremos em SP o festival Sud de France e que coincidentemente estou lendo uns livros com especial atenção sobre esta região, o apetite de escrever se concretiza.
Em 2010 tive a felicidade de conhecer parte desse lindo lugar, indo de carro de Barcelona à Carcassonne (onde fiquei hospedado), passando por belas paisagens desta região fronteiriça entre a França e a Espanha, conhecida antigamente como país cátaro (uma estrutura social-religiosa de meados da Idade Média), daí o nome Catalunha no lado espanhol e até a existência de um vin de pays "Côtes Catalanes" no lado francês.
A cultura da vinha no Languedoc-Roussillon remonta ao tempo das conquistas gregas no Mediterrâneo, mas é depois da ocupação romana no séc. II a.C. que a vinicultura realmente se desenvolve ao longo da Via Domitia, estrada que ligava Lyon à Espanha passando por Narbonne. Após a queda do império a região passou a ter uma importância secundária, posto que foi dividida em inúmeros territórios independentes que só se uniram à coroa francesa no fim da Idade Média e início da Idade Moderna. Mas só com a chegada da estrada de ferro à Perpignan em 1858 a atividade vinícola voltou a se desenvolver.
Mapa da região
A primeira impressão que se tem ao visitar a região é a diversidade topográfica e de micro-climas. Enquanto que do lado espanhol a planície e a aridez predominam até próximo da fronteira, depois dela o terreno se torna mais acidentado e os pequenos cursos d'água que descem das montanhas fazem a paisagem mais verde; enquanto que nos picos mais altos dos Pireneus costuma ocorrer neve, mesmo que nos contrafortes o tempo ainda esteja bom. As culturas frutíferas e de girassol se intercalam e ao longo da costa existem inúmeras lagoas (étangs), muitas delas de água salobra devido à proximidade com o mar. Dizem mesmo que os vinhos secos de Collioure tem uma notinha salgada. Surpreendentemente esta região coincide com o Banyuls, o famoso vinho doce natural (VDN) francês encontrado em diversos tipos, similar ao Porto, assim como o Maury, apelação próxima.
Étang na costa mediterrânea perto de Perpignan - a "maresia" influencia os vinhos desta região

Corte esquemático da região do Corbières - muita variação geológica
A cidade de Carcassonne é cercada por vinhedos, da AOC Malepère, enquanto que ao nordeste está o Minervois, que produz vinhos mais tenros e na direção sul-sudeste da "cité" fica a AOC Corbières que, exprimindo sua topografia dramática, repleto de picos e vales, com solos de calcário e xisto, gera vinhos mais duros e rústicos, com muita cor; na minha estada em Carcassonne tomei um muito bom - e quase preto! - do Château Étang des Colombes, localizado na sub-apelação  de Corbières-Boutenac; acompanhado um cassoulet foi uma harmonização perfeita! Ao sul fica a região de Limoux, famosa pelos brancos tranqüilos bastante cítricos e pelo Blanquette de Limoux, um espumante refrescante feito pelo método champenoise tradicionalmente com a uva mauzac, mas hoje se utiliza também bastante chardonnay em geral nesta região e chenin blanc em particular neste crémant.
Vinhedos vistos através das ameias da muralha da cité de Carcassonne

Vinhedos das Côtes de Malepère, pertinho de Carcassonne
Partindo de Narbonne em direção à fronteira espanhola pela autoroute A9, saindo de Corbières se passa pela região costeira do Mediterrâneo e pelas apelações de Fitou, Rivesaltes, Côtes-du-Roussillon, Côtes-du-Roussillon Villages, Maury e Banyuls, entre outras menores. Passando por Perpignan nota-se uma grande variedade de solos, facilmente perceptível pelo amarelo esbranquiçado do calcário e o cinzento mais escuro das argilas e xistos. A região do Roussillon é responsável pela produção de 90% de todos os vinhos doces naturais da França nestas apelações e ainda cultiva tradições curiosas, como o envelhecimento dos Maury em bombonas de vidro expostas ao ar livre.

 

Duas vistas do Château d'Aguillar - cujo nome provém do latim aquila (águia). Foi um baluarte da resistência dos cátaros durante a cruzada albigense. Castelos, ruínas e outros sítios como este são abundantes no Languedoc - alguns são vistos mesmo a partir da estrada.
Se, por outro lado, se toma a estrada no sentido norte em direção à Marseille, passando por Béziers, temos no interior as regiões (sub-apelações do Languedoc) mais relevantes de Saint-Chinian, Fougères, Terraces de Larzac, Pézenas e Pic-St.-Loup.
Falando em viticultura o Languedoc-Roussillon é uma colcha de retalhos de 250.000 hectares de extensão (a maior região vitícola do mundo). Nos últimos 25 anos uma nova geração de vignerons vem alterando a paisagem, substituindo vinhedos antes voltados para a produção em grande volume. Dada a variedade climática, lá se encontra tanto as uvas usuais das regiões vizinhas como antigas uvas autóctones da região. São comuns os vinhedos em que se encontra inúmeras cepas plantadas misturadas. Então, na sua porção mais ocidental, de influência atlântica e mais próxima do terroir bordalês, se encontra bastante merlot, cabernet sauvignon e malbec, chamada também côt. Do outro  lado, encostado no Rhône e na região da Provence, há carignan (a cepa mais plantada no Languedoc), cinsault, mourvèdre, grenache, syrah... E todas essas, juntas e misturadas com outras cepas tintas autóctones no interior da região - fer servadou, lledoner pelut e muscat à petits grains rouges, por exemplo. Quanto às cepas brancas (que somam apenas 15% do vinhedo), a chardonnay vem dominando a cena, uma vez que muitas vinhas de viognier vem sendo arrancadas em beneficio desta estrela internacional; encontra-se também sauvignon, marsanne, roussanne; a muscat à petits grains blancs ou rosés, e a grenache blanc são muito utilizadas para os vinhos doces naturais (VDN) brancos e entre as cepas nativas estão a gros e petit mansengs (ótimas também para VDN), a bourboulenc (malvoisie), a clairette, a mauzac e a piquepoul. Para os VDN tintos se utiliza muita grenache noir, uva introduzida na região ainda na Idade Média.
A produção do terroir languedocien se estrutura em cinco categorias: os mais comuns vins de table, os vins de pays (que passam a ser conhecidos por IGP - indication géographique de procédence - são aqueles que saem da regulamentação AOC por características culturais ou opção do vigneron), as apelações regionais (AOC Languedoc, AOC Côtes du Roussillon), apelações sub-regionais (Corbières, Minervois, Saint-Chinian, Pic-St.-Loup no Languedoc, Côtes-du-Roussillon Villages e as apelações de VDN - Rivesaltes, Muscat de Rivesaltes - no Roussillon) e apelações comunais (Banyuls, Banyuls Grand Cru, Collioure e Maury, por exemplo).
O clima mediterrâneo ensolarado dos vinhedos mais próximos à costa proporcionam uvas de ótima maturação que geram vinhos generosos, corpulentos e tânicos, embora redondos nos bons crus. Mais para o interior, principalmente em terrenos calcários, mesmo a syrah ou a carignan dão vinhos de taninos bem afinados pela mão dos bons produtores. Nos terrenos mais altos (acima de 500m) do Minervois e de Corbières o clima mais ameno resulta em vinhos mais delicados e sedosos. Antigamente, na França, se chamava pejorativamente o vinho da região de vin cuit, ou cozido, devido ao alto grau de maturação a que chegavam as uvas, o que proporcionava vinhos pesados e moles.
São inúmeros os terroirs que estão sendo disputados entre grandes grupos vinificadores e os produtores tradicionais que hoje primam pela maior qualidade, e muitos deles começam a ser conhecidos do grande público. A prefeitura de Aniane proibiu Robert Mondavi de comprar uma grande área e construir uma vinícola industrial na região do Mas de Daumas Gassac, mas algumas estrelas internacionais, entre elas o francês Gerard Depardieu e mais recentemente o casal Pitt-Jolie produzem vinhos de boutique na região.
M. Chapoutier produz ótimos e carnosos tintos nas Côtes du Roussillon Villages, como por exemplo o Bila-Haut e o Occultum Lapidem (cortes de grenache, carignan e syrah); o V.I.T. é o vinho top de Chapoutier na região e seu nome (Visitae Interiore Terrarum) corrobora o caráter esotérico e geológico do lugar, um sítio argilo-calcário com muita ocorrência de pedregulhos. Para completar a trilogia do anagrama VITRIOL (visitae interiore terrarum rectificando invenies occultum lapidem - uma máxima hermética e maçônica), recentemente Chapoutier lançou o R.I. (Rectificando Invenies), que ainda não chegou no Brasil. Na base da linha de tintos temos o Marius, corte redondo e gostoso de grenache e syrah na casa dos R$50,00.
Este carnudo tinto de M. Chapoutier é encontrado aqui

Um dos mais reputados domaines da região é o Mas de Daumas Gassac, localizado no vale do Agly, na região de Terraces do Larzac, que produz tintos e brancos vin de pays de l'Herault considerados pela imprensa especializada os grand cru do Languedoc. Realmente são grandíssimos vinhos, muito complexos devido à utilização de inúmeras uvas no seu corte, daí a sua não-inclusão na apelação. Foi seu proprietário, Monsieur Aimé Guibert quem primeiro se deu conta do valor destas terras para a vinicultura e contratou Émile Peynaud, o pai da enologia moderna, professor da Universidade de Bordeaux, para ajudá-lo a desenvolver suas vinhas e seus primeiros vinhos, nos idos da década de 1970. Tive a oportunidade de provar o Daumas de Gassac no último Encontro Mistral, onde a representante do Mas não abriu o jogo quanto ao corte do vinho, só deu umas dicas: tem cabernet sauvignon, grenache, alguma casta portuguesa, talvez tempranillo, nebiollo... São utilizadas 11 uvas na elaboração, dentre as 40 cepas que o Mas cultiva nos seus 45ha. Também o branco é um corte insólito, que contém chardonnay, viognier, manseng e alvarinho, entre outras... Eu já havia provado o Pont de Gassac, ótimo segundo vinho do Mas (cabernet, merlot e syrah -  http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/06/salut-mes-amis-esse-ai-debaixo-eu-tomei.html), o Figaro, vinho de entrada de ótima relação preço/qualidade, corte de carignan e grenache, na faixa dos R$40,00 e o muito frutado e gostoso frisante rosé de cabernet sauvignon e petit manseng elaborado por saignée. E ainda tenho na minha adega um Moulin de Gassac, varietal de syrah ainda muito jovem para provar e um Pont de Gassac blanc, que está aguardando a oportunidade.
Mas de Daumas Gassac
Esses aí já devem estar bons para beber...
Esses dois produtores são importados pela Mistral.
Da Cave Jado já provei 2 vinhos provenientes desta região, produzidas pelo Château du Donjon: Cuvée Galinières, 100% carignan, um vinho denso de aromas de frutas cozidas e especiarias, bem redondo na boca e o Grande Tradition, corte de grenache, syrah e carignan, um minervois muito aromático (frutas vermelhas e especiarias) e persistente, com taninos bem marcados e que pode ser guardado por um bom tempo ainda. 
Ainda tenho alguns exemplares da região na adega, entre eles uns Paul Mas, produtor do Pays de l'Herault que me foi muito bem recomendado (um grenache noir 2010 que já deve estar apetitoso e um carignan de vinhas velhas também 2010 que convém esperar um pouco) e espero ainda provar muito mais vinhos desta apaixonante região que ainda tem muito a nos revelar, assim como espero que os amigos tenham gostado deste post.
Outros produtores bem recomendados que encontramos no Brasil são o Château d'Aussières (Corbières - Mistral), Château des Erles (Fitou - Zahil), Domaine de Cazes (Roussillon - Expand), entre vários outros disponíveis. Com este festival Sud de France, estão pipocando novidades por aí, inclusive uns crémant de Limoux que eu ainda não tinha encontrado por aqui.
Sobre minha estada em Carcassonne, eu já havia escrito em maiores detalhes aqui: http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/06/souvenirs-de-carcassonne.html
Au revoir, mes amis! Santé!



Bibliografia:
- Vins de France et du Monde. Languedoc-Roussillon. Le Figaro e Revue des Vins de France
- Atlas Mundial do Vinho. Hugh Johnson e Jancis Robinson
- Vinhos Franceses. Robert Joseph, Ed. Zahar.
- Le Petit Larousse des Vins
Algumas fotos são minhas, outras fotos e figuras foram retiradas das publicações acima.





domingo, 2 de setembro de 2012

Bistro de Paris na Restaurant Week

Salut, mes amis!
Ontem eu e a patroa fomos fazer umas compras em SP e resolvemos jantar no Bistro de Paris, antigo Crepe de Paris, localizado numa "vilinha" super-simpática na R. Augusta.
O lugar é muito aconchegante, o atendimento como sempre é muito atencioso e as opções das cartas são apetitosas. Como estavam participando da "Restaurant Week", além do cardápio tradicional da casa, repleto de bons pratos, havia também a alternativa de um menu fixo a R$ 43,90 por pessoa, com 3 opções de entrada, prato principal e sobremesa. Na carta de vinhos, com boas opções de preço bem adequados, havia também uma proposta de harmonização de 3 taças da entrada à sobremesa: um bourgogne aligoté, um bordeaux superieur e um gewurtz meio-seco (ou meio-doce?).
Como entrada, entre a terrine de polvo, steak tartare e uma salada "du chef", escolhemos a terrine; para o prato principal havia a opção entre um entrecôte ao molho de mostarda Dijon e batata rösti, cassoulet de frutos-do-mar, ravioli de muzzarela e tomate seco à manteiga da Normandia e um risoto de canard e ameixa, o qual escolhemos; e como sobremesa tarte tatin, crèpe de nutella com banana e crème brulée, nossa preferida.
Os vinhos, neste caso fornecidos pela Chez France, harmonizaram muito bem com os pratos escolhidos: o ligeiro bourgogne aligoté Taupenot Merme '09 muito fresco e com aromas cítricos e de abacaxi combinou com a leveza da terrine temperada com estragão; o bordeax Haut Rozier '08 se mostrou um vinho bem carnudo e pela cor e pelos aromas de fruta madura suspeito que tenha uma boa participação de merlot no corte, casando muito bem com o pato e a ameixa do risoto. E para encerrar, uma copita de um Vin d'Alsace Jean Marie Haag Gewurztraminer Valée Noble '09, um vinho rico, dourado, com aromas florais e de frutas brancas, untuoso mas muito equilibrado na boca.
Terminando a belíssima refeição o garçom me disse que pode-se levar para casa qualquer vinho da carta com 30% de desconto, que seria o preço da loja. Acabei comprando uma garrafa do gewurtz para apreciar com mais calma no aconchego do lar, talvez acompanhando minha tarte tatin que a modéstia permite-me dizer que é uma maravilha.
Isto posto, continuo recomendando o Bistro de Paris aos amigos, é realmente uma ótima opção de lugar aconchegante, atendimento simpático, boa comida e bebida e preço justo, ao contrário da concorrência estrelada ali da região...
À bientôt!

La terrine de poulpe à l'estragon

La crème brulée et le gewurtz
E essa intrusa aí é a MINHA tarte tatin, que vai cair muito bem com este gewurtz...

domingo, 26 de agosto de 2012

Visita à Reims - Champagne Pommery, Café du Palais e Cathédrale

Bonjour, mes amis!
Hoje vou contar um pouco da nossa visita à Reims no verão passado. Era início de setembro, e acordamos cedo com dificuldade numa sexta-feira para fazer o trajeto Paris-Reims - no dia anterior tínhamos visitado a Eurodisney e retornado para o hotel, no 8ème de Paris, depois da meia-noite. Já era o décimo dia da nossa viagem à Europa, então já estávamos com um pouco de cansaço acumulado. Pedimos o petit déjéuner no quarto e nos aprontávamos enquanto comíamos, pois a visita estava marcada para as 10 horas.
Conseguimos sair do hotel às 8 e a viagem pela A4 correu sem percalços. Um fato pitoresco ocorreu quando saímos da autoroute para pegar a estrada para o centreville - perguntei para a moça do pedágio se aquele era o caminho certo para Reims e ela me respondeu categórica: "Noooooon", para ir a Reims eu deveria sair da estrada na próxima saída, ela me falou. Ah, vá! Esses europeus e seu pensamento cartesiano às vezes nos surpreendem...
Enfim, chegamos na sede da Pommery correndo, estávamos em cima da hora para a visita guiada em francês e sentimos então os efeitos da pontualidade europeia. O casal que estava comprando os tíquetes à nossa frente na fila falava uma língua estranha, acho que do leste, o pessoal não compreendia e acabou atrasando uns 2 minutos. Foi o suficiente para o guia descer com o grupo e nos deixar para trás. Tivemos que aguardar a guia em língua inglesa, às 10h30. Tudo bem, dá para entender, mas não é a mesma coisa...
Entrada da cave
Mme. Christine iniciou a visita explicando um pouco da história desta importante casa de Champagne. Fundada em 1858, era chamada anteriormente Pommery-Greno, em função das duas famílias proprietárias. Após o falecimento do marido, em 1860, Madame Louise Pommery assumiu o controle total da empresa, que passou a administrar de uma maneira inovadora, investindo principalmente no mercado de exportação, voltado aos britânicos. Nesta época, inclusive, ela encomendou uma grande reforma na maison, com influências arquitetônicas inglesas, e criou o champagne brut, diminuindo a dosagem de açúcar no liqueur de expédition, tudo para agradar aos fregueses. Mecenas do meio artístico, mandou decorar as paredes calcárias das caves com esculturas e promovia saraus nas instalações da empresa, costume que perdura até hoje. Mais recentemente a empresa passou para o domínio da Vranken, multinacional de bebidas fundada em 1976.
A maison está instalada sobre 18km de caves escavadas no período galo-romano (séc. XII, aproximadamente), de onde se retirava material de construção, há 30m de profundidade média e temperatura constante de 10oC. Nestas caves repousam cerca de 20 milhões de garrafas de champagne. Possui atualmente 55ha de vinhedos, produz cerca de 3 milhões de garrafas e recebe a visita de mais de 60.000 ao ano.
Letreiro antigo afixado na entrada da cave
"Festa de Baco", esculpida diretamente na rocha da parede da cave
"Silene"
"O Champagne", o tempo em que se bebia o vinho nas antigas copas baixas e largas
"Louise Pommery"
Mme. Christine...
...e a tradicional explicação sobre autólise, remuage e engarrafamento do champagne.
Os tesouros da maison, guardados a sete chaves: entre as garrafas, o primeiro champagne brut elaborado
Depois da visita à cave, degustamos 4 champagnes produzidos pela Pommery: o brut, um millésime '04, de extraordinária fineza, o rosé, que é elaborado com 40% de pinot noir e 60% de chardonnay, este um pouco mais estruturado, e um "extra-dry", com um pouco mais de açúcar na dosage, contudo bastante fino e equilibrado. Na lojinha, comprei uns badulaques como souvenirs, entre eles uma garrafinha de POP numa embalagem dourada que a patroa achou "uma graça" para decorar nosso barzinho em casa.
Este barrilzinho aí foi montado e entalhado por ocasião do 1.o aniversário da Independência Americana. Embarcado para Washington cheio de vinho, foi devolvido para a Pommery depois de encerrados os festejos dos quais participou
Entalhe do barril: "Europa" oferece uma taça de vinho à "América", sob os olhares da "Liberdade" e do índio americano, tudo sobre as paisagens e os vinhedos de Reims.
Madame Pommery

A bela arquitetura da Maison Pommery
Depois de terminada a visita, fomos almoçar no Café du Palais, tradicional brasserie localizada no centreville de Reims, bem em frente ao Palais do Tau e da praça da catedral. Comemos um excepcional tagliatele au foie gras et morilles à la crème, e só não sei se fui feliz na escolha do vinho, um chassagne-montrachet... A baixinha comeu um prato infantil de peixe que veio todo decorado como uma carinha de palhaço, ela adorou! A sobremesa também estava ótima, era uma espécie de sorbet com queijo branco e iogurte, com frutas vermelhas e calda quente... divina!
O Café du Palais
Le dessert
À tarde fomos visitar a Cathédrale de Notre-Dame de Reims, igreja no estilo gótico construída em meados do séc. XIII e tida como uma das mais representativas catedrais deste perído da França, ao lado de Chartres, Paris, Rouen e Amiens (ainda me faltam estas 2 últimas...). A vista imponente da catedral ao se chegar a praça é inesquecível, assim como são marcantes alguns sinais deixados pelos conflitos por quais passou esta igreja. 
Na 2.a guerra mundial, a catedral foi o último ponto de resistência das tropas francesas quando da invasão alemã na cidade, trocando de mãos por diversas vezes durante uma semana até a total subjugação pela werhmacht. Marcas de tiro ainda pontuam as fachadas da catedral como cicratizes, pois os champenois demonstram com orgulho sua importância na história militar francesa. A região foi importante foco de resistência nas guerras franco-prussianas e na 1.a grande guerra, quando a Batalha do Marne devastou a região e seus habitantes.
Em 1962 o Geneal de Gaulle recebeu o chanceler alemão na catedral de Reims para reafirmar a paz entre as nações, gravada na calçada defronte à catedral
Vista da fachada principal - portal leste - a partir da praça
Detalhe do portal - Jesus coroa Notre-Dame na ascenção aos céus
Como em toda catedral gótica, as gárgulas estão por toda a parte para expurgar o mal
Estudantes "flanam" à sombra da fachada norte
Cartaz explicativo afixado na parede da catedral



Interior da belíssima catedral
Depois da visita à Cathédrale, fomos dar uma voltinha pelo centreville, afinal a patroa já tinha visto uma filial da Galleries Lafayette... menos mal, fora de Paris os preços são melhores mesmo... chamou a atenção (como em Bordeaux) o tram, um tipo de bondinho moderníssimo que cruza as ruas do centro, sendo uma ótima alternativa de transporte urbano.


Centreville de Reims
Place Henri Deneux, belo exemplo da arquitetura champenoise
Mais uma vez ficamos encantados com esta belíssima região francesa. A aura de glamour que envolve o champagne no imaginário de todo o mundo parece ter se espalhado por todo o lugar, não apenas às famosas casas mundialmente conhecidas. Toda pequena propriedade, comércio ou local público é extremamente bem cuidado e bem arrumado, as cidades são incrivelmente limpas e lindas. O povo é acolhedor, educado e elegante, embora seja simples e receptivo ao turista. Da última vez em que estivemos na região era inverno, e mesmo a paisagem quase inóspita devido aos vinhedos em hibernação e à neblina constante encobria estas características da região: um povo que recebe bem, come bem, bebe maravilhosamente bem... do mais aristocrata ao mais simples vigneron, que também é um especialista em champagne, sem dúvida. Em suma, o champenois vive muito bem, e deixa isso transparecer nas vilas em que habita.
Saímos daí ao final do dia revigorados para continuar nossa viagem em Paris.
Au revoir, mes amis! À la prochaine!