domingo, 15 de abril de 2012

Beaune - dia 2, parte 1

Salut!
Hoje vou começar a contar como foi nosso segundo dia em Beaune, um dia que nós passamos com a guia, conhecendo muitos vinhedos e algumas vinícolas na Côte d'Or. Ainda em que sempre mantenho um diariozinho de viagem, assim lembro tudo em detalhes.
O dia começou com o ótimo café da manhã do hotel Le Cèdre, e por volta das 9h30 a Carol da Vidaboa Viagens veio nos buscar para fazer o passeio que ela chama de "Dia DOC". Como eu havia lhe dito que no dia anterior já havíamos passeado um pouco pelo norte da Côte de Nuits, afinal tínhamos vindo de carro de Dijon à Beaune, ela achou melhor começarmos o passeio pela colina de Aloxe-Corton. 
Ali ela nos explicou, sobre um mapa instalado num quiosque apropriado para receber turistas em pic-nics perto da D115, muitas das ccaracterísticas dos terroirs da região, dando a explicação geológica dos diferentes tipos de solo (com o infalível exemplo do mille-feiulle, inclusive), inclinação, insolação, etc.
A face sul da colina de Aloxe-Corton

Mapa dos vinhedos e apelações de Aloxe-Corton
Como diz Hugh Johnson em seu "Atlas Mundial do Vinho" é aqui na colina de Aloxe-Corton (a única colina isolada da Côte de Beaune) que é quebrado o feitiço que impede o restante da côte de produzir um Grand Cru tinto. Este Grand Cru é o Corton, e o curioso é saber que até o séc. VIII a colina só produzia tintos. Foi o rei Carlos Magno que, ao conquistar a Borgonha, ordenou que ali se plantassem uvas para fazer vinho branco, pois o tinto lhe manchava a imensa barba branca. Ele já notara que aquela encosta era ideal para o amadurecimento da chardonnay, pois ali primeiro se derretia a neve invernal devido à ótima exposição ao sol. Os Grand Crus brancos se concenttram nas faces oeste e sul da colina, com maior inclinação e melhor insolação, enquanto que os tintos se espalham pela encosta leste.

A Carol anda com um kit de garrafas para explicar as apelações, e a baixinha já quis fazer pose, afinal, educação vinícola começa em casa...




Os enjambeurs - tratorzinhos com rodas enormes, usados para passar sobre as vinhas fazendo a colheita mecanizada - e caminhões circulavam a todo vapor trabalhando na vendange
Saindo da colina fomos a Vougeot, onde visitamos o Château du Clos Vougeot, antigo domínio dos monges cistercienses (a ordem de São Bernardo), que foram os primeiros a perceber e explorar as diferenças de terroirs da região. Atualmente, o château é a sede da Confrérie des Chevaliers du Tastevin, uma sociedade fechada que agrega as mais iminentes pessoas para o vinho bourguignon. A visita é muito boa, ainda mais para pessoas que, como eu, adoram história e Idade Média; eles mantém um pequeno museu e antigos equipamentos de vinificação, além de uma lojinha com uns souvenirs bem legais.

Uma prensa antiga e um tastevin gigante
Hoje em dia o vinhedo do château é dividido em inúmeras parcelas pertencentes a dezenas de proprietários
Mas vinho que é bom, até agora nada... eu já estava tremendo e com a garganta seca quando a Carol falou que em seguida pararíamos para fazer uma degustação no Domaine Bertagna, ali mesmo em Vougeot. 
Degustamos dois Grand Cru tintos, o Corton e o Clos Saint Denis (aquele que emprestou o nome ao vilarejo de Morey), três Premier Cru, o Nuits-St. Georges, o Vougeot e o Vosne-Romanée e o Premier Cru branco Vougeot "Les Cras", um dos raríssimos vinhos brancos produzidos na Côte d'Or ao norte de Beaune. Todos grandes vinhos, demonstrando um equilíbrio e uma elegância para mim até então desconhecidos, com muitas camadas aromáticas de frutas, terra, couro e carvalho, a acidez sempre muito bem balanceada com o tanino. O branco se mostrou untuoso, com notas de mel, manteiga, mas também frutas brancas e um toque mineral. Enfim, comprei ali três garrafas, afinal ainda não sabia o que o restante da viagem me reservava.


Vinhos degustados na loja do domaine

Fachada do Domaine Bertagna em Vougeot
Entrada de um "clos" - vinhedo fechado - "monopole" - propriedade única - do Domeine Bertagna, raríssimo cru branco da Côte de Nuits


Saindo deste Domaine passamos por Vosne-Romanée e por seus míticos vinhedos, conhecendo as modestas (!?) instalações do Domaine de la Romanée-Conti e de seu proprietário, Monsieur de Villaine. Paramos para tirar fotos em Romanée-Conti e aproveitamos para experimentar uns bagos do pé no vinhedo de Romanée Saint-Vivant, do outro lado da rua, chamada "la Romanée", um antigo caminho das tropas romanas, bem ao fundo do vilarejo de Vosne-Romanée. É muito Romanée para a cabeça... As uvas estvam meladas de tão doces, tanto que em diversos vinhedos a colheita já havia começado.

Fachada do DRC no vilarejo de Vosne- Romanée

Chupando pinot noir no vinhedo de Romanée Saint-Vivant
A mítica cruz às margnes de la Romanée e do "clos" de Romanée-Conti
O vinhedo mítico, encravado entre Richebourg (á direita) e La Grande Rue e La Tâche (à esquerda)
Fomos almoçar em Nuits-St. Georges, e como já passava das 13h30, quase que o chef não quis nos atender! Eles são muito rígidos com o horário na França, e o horário do almoço lá se encerra às 14h. A Carol teve que insistir para nos servirem. Mas a comida (jambon persilé, coq au vin e crême brulée) estava ótima, assim como o vinho, um Vosne-Romanée Dominique Mugneret 07, inspirado no nosso passeio anterior.
Muitos restaurantes são instalados em antigas caves
O final deste inesquecível dia de enoturismo eu pretendo contar num próximo post, enquanto isso eu vou esperando maturar esses vinhos fantásticos que eu trouxe e que estão deitados aqui na minha adega. Afinal, ser enófilo também é praticar a paciência, assim como os monges enólogos borgonheses já faziam há séculos...
Santé!

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