sexta-feira, 27 de abril de 2012

Lembranças

A primeira lembrança sobre o vinho em minha vida remete à minha infância, quando eu passava as tardes na casa do meu saudoso avô, já aposentado da dura labuta de vida inteira na carvoaria de sua família, a Carvoaria Baraldi, na tradicional Rua Natal, aqui em Santo André.
Eu tinha cerca de 6 anos, e meu avô, que veio para o Brasil ainda na barriga da nonna em 1901, tinha, portanto, uns 82.
À tarde, após o almoço, ele sentava numa cadeira nos fundos da casa e começava a preparar seu cigarrinho de palha, com a palha do milho que ele plantava ali mesmo no quintal, e secava sob um telhadinho junto com o fumo. Picava o fumo bem fininho, afiava o canivete no silex, desfiava a palha com o canivete afiado até ficar bem fininha... Tudo entre brincadeiras comigo - nunca vou esquecer dos piões e estilingues que ele me fazia com este mesmo canivete, as arapucas que armava no meio do quintal para pegar passarinhos só para soltar depois... Enfim, quando acabava de pitar o cigarrinho, já estava quase na hora da janta que minha tia preparava num velho fogão à lenha (este era a prova que eles ainda existiam na cidade na década de 80). A polenta mexida durante quase 1 hora com colher de pau, a salada de almeirão plantado na hortinha do quintal, os ovinhos de codorna que eu mesmo pegava no viveiro, um frango caipira... bons tempos em que tudo era brincadeira.
Antes de sentar à mesa, meu avô vinha com uma garrafa de um líquido escuro, misturava com água e açúcar e me dava para beber. Muitas vezes, quando havia sopa e não tinha nenhuma mulher olhando, ele derrubava um pouquinho do líquido no meu prato de sopa. Às vezes, surpreendido por alguém que o repreendia por dar vinho para criança, ele respondia: "ma che, fa bene...".
Foi assim, com o sabor agora duvidoso do vinho colonial, produzido artesanalmente pelos imigrantes italianos aqui do ABC, que comecei a tomar gosto pela coisa.
E num dia desses, ao abrir um vinho italiano à noitinha em casa, quase não consegui conter a emoção (como agora estou emocionado enquanto escrevo) com as lembranças que vieram à minha cabeça. "Fantástico!"... exclamei. A patroa perguntou se o vinho estava bom, e o curioso é que realmente não estava, era um bardolino simplesinho bem medíocre, mas foi mais que surpreendente a maneira como ele me trouxe de volta na mente as lembranças dos meus dias de criança. Quem assistiu o filme Ratatouille da Disney vai entender o que estou querendo dizer, como na cena em que o crítico gastronômico come uma simples ratatouille que lhe traz na lembrança os tempos de infância, uma queda, um machucado, o jeito carinhoso que nossa mãe nos preparava nosso prato preferido para nos consolar do choro...
Meu avô morreu quando eu tinha 9 anos - e eu acho que ele nunca soube o bem que me fez.

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