domingo, 13 de maio de 2012

Beaune - dia 2. O Dia DOC, parte 2.

Salut, mes amis!
Este é o  prosseguimento ao relato da minha viagem à Borgonha, afinal foram tantas emoções que a extensão dos posts e o tempo para escrevê-los me forçam a dividi-los e para quem não viu a primeira parte do meu "Dia DOC" segue o link:  http://www.conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/04/beaune-dia-2-parte-1.html
Almoçamos no “Au Caveau Nuiton”, um restaurantezinho familiar em Nuits-St. Georges, construído numa antiga cave escavada na rocha calcária tão presente na região. Como chegamos um pouco atrasados – já era por volta das 13h30 – quase que o chef não quis nos atender, mas depois da insistência, eles acabaram nos servindo, com a condição que escolhêssemos os pratos que estavam disponíveis. Enfim, comemos o tradicional jambon persilé, coq au vin e créme brulée de sobremesa, acompanhados por um Vosne Romanée ’07 de Dominique Mugneret, talvez o vinho mais encorpado que eu tinha tomado na Borgonha até então, tânico e terroso.
Saindo do restaurante, no centreville de Nuits-St. Georges observei umas obras de rua, onde pude notar a cor amarelada, quase esbranquiçada do solo. A Carolina Licati (a guia, dona da Vidaboa Viagens, que nos acompanhava), me explicou que é normal encontrar-se nestes solos calcários fósseis de conchas marinhas, o que comprova uma longínqua origem marinha dos solos de algumas regiões, o que transfere o caráter mineral aos vinhos produzidos nestes locais. Também passamos em frente à sede de Faiveley, um dos maiores e mais bem reputados négociants da Borgonha; que como todos os bourguignons, primam pela parcimônia e não dão muita bola para as aparências...
Saindo de Nuits-St. Georges fomos dar um passeio pelas Hautes-Côtes. Primeiramente fomos a uma lojinha de cassis no hameau (um pequeno vilarejo) de Concoeur. O pessoal estava preparando as geleias ali na hora, em grandes tachos de cobre, e o aroma de "frutas vermelhas compotadas" de que a gente tanto fala tomava conta do ambiente. Degustamos geleias, mostardas e licores, deliciosos, e trouxemos algumas garrafinhas de licor de cassis, afinal "aprendemos" a tomar o kir - na Borgonha preparado com aligoté e cassis - durante esta viagem.

A lojinha de cassis "Fruitrouge"
Continuamos nossa viagem pelo alto da encosta, e embora o dia estivesse ensolarado, por aqui já se nota uma diferença climática em relação aos vinhedos mais abaixo, ao longo da "Route des Grand Crus". A topografia, a altitude e a maior presença de bosques torna o clima mais frio e úmido, às vezes até com névoa. Tanto que as plantações de frutas pretas e vermelhas toma lugar das videiras em grandes áreas, e não são poucos os vinhedos "malcuidados" nesta região.
Rumo ao sul, atravessamos Beaune e, à altura de Pommard, voltamos a subir a encosta, passando por Saint-Romain Visitamos uma tonellerie (tanoaria) a maior exportadora dos fûts de chêne da França. Pude observar o processo de armazenagem do carvalho, cujas tábuas ficam em torno de cinco anos empilhadas ao relento para amaciar o tanino da madeira, a montagem dos barris e a sua tostagem.


Des tanneurs au travail
Barris a serem queimados
Expedição
Em seguida passamos por Rochepot, de onde tirei uma bela foto do Château de la Rochepot e chegamos às falésias de Baubigny, uma interessante formação geológica de onde se observa Saint-Aubin e Mersault, lá embaixo.
Château de la Rochepot
Falaise de Baubigny
Saint-Aubin e - creio eu - Mersault ao fundo
Paramos então no Domaine Michel Picard, em Chassagne-Montrachet. Cabe lembrar que as comunas de Chassagne e  Puligny se "apropriaram" do nome de seu vinhedo mais famoso, já que ele fica na divisa... A visita ao domaine e a pequena degustação que se seguiu foi bem instrutiva, pois a atendente que nos acompanhou era bem atenciosa, o pessoal ali está mesmo muito bem preparado para receber visitantes.
Sala de degustação do domaine Michel Picard

Os dois únicos barris de Puligny-Montrachet produzidos pelo domaine - aproximadamente 600 garrafas de vinho ao ano

Vinhedos ao longo da Route de Santenay

Vinhedos de chardonnay dentro do château

Tanques de fermentação em inox


Visita ao chai da vinícola
Saindo do Domaine Michel Picard passamos rapidamente pelos famosos vinhedos de Montrachet - talvez o vinhedo mais cobiçado e mais compartilhado da Côte d'Or - e Bâtard-Montrachet. Os vinhedos Grand Cru se situam na face leste da colina, com uma inclinação média de 10%, que se acentua próximo do topo, no vinhedo chamado Chevalier-Montrachet. Alguns produtores possuem poucas vinhas nestes Grands Crus, e produzem apenas um ou dois barris por ano, e dessa raridade resulta o preço elevadíssimo. Passamos também por Mersault (terra de brancos “generosos”, que teimosamente não possui vinhedo classificado como Grand Cru – seus produtores se consideram acima de qualquer classificação), Volnay, Pommard e seguimos pela Route des Grand Crus, passando novamente por Beaune. Concluindo este "Dia DOC" em companhia da Carol (da qual segue o lik do site e um vídeo abaixo, produzido pelo pessoal da École des Vins de Bourgogne), fizemos uma visita ao domaine de sua família, o Parigot, em Savigny-lès-Beaune.
Lá pudemos conferir os ótimos crémants que eles produzem pelo método tradicional, com a segunda fermentação na garrafa. A AOC bourguginonne é muito mais rígida que a de Champagne, que permite inclusive mistura de vinhos para obtenção de champagne rosé. Na Borgonha utilizam-se pinot noir, chardonnay e, às vezes, aligoté, para contribuir com sua acidez que dá mais frescor ao espumante. Como chegamos ao final do dia, o pessoal já estava encerrando os trabalhos, lavando os utensílios para o dia seguinte – a higiene é fundamental na vinícola. A última remessa de uvas já havia sido prensada e os últimos sumos dos bagos de pinot noir ainda escorriam da prensa, exalando o perfume maravilhoso. Transferido aos tanques, o suco já começaria a fermentar e se tornar o vinho tranquilo a ser engarrafado com levedura e açúcar para a segunda fermentação; aqui, o vinho tinto é maturado pouco tenpo sob o chapéu do mosto, para adquirir apenas a tonalidade pretendida para a obtenção do rosé, ou então é imediatamente separado das cascas, quando for misturado com vinho branco de chardonnay ou aligoté ou para a obtenção de um blanc de noirs, mais incomum. Descemos ao chai onde a Carol nos demonstrou a manipulação das garrafas nos pupitres, a retirada dos resíduos de levedura que se acumulam no gargalo, a adição o licor de expedição, enfim, todo o processo. Degustamos seus crémants numa simpática sala de degustação que eles mantem no subsolo, e compramos duas garrafas de sua cuvée “d’Or”, um belíssimo rosé adicionado de floquinhos de ouro, engarrafado numa bela bouteille transparente com um rótulo metálico dourado, sensacional.

Pupitres
O belo rosé em autólise
A cuvée "d'Or"
Assim terminamos nosso dia, eu diria que para mim foi um dia mais que especial, que ficará para sempre guardado na minha memória. De todos os passeios eno-turísticos que fizemos, sem dúvida este foi o mais interessante – pela ajuda especializada da Carol, que nos atendeu com muito carinho, pela beleza da região, que vai ficar pra sempre gravada na retina e pelo mágico mundo que é o mundo do vinho e das pessoas que nele trabalham.
Oxalá um dia possamos retornar e viver novamente estas experiências.
Au revoir! Santé!

(contato@vidaboaviagens.com.br)

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