terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Beaune - dia 1

Salut, mes amis!
Vou iniciar uma pequena série de postagens contando um pouco mais sobre a viagem que fiz à Borgonha no ano passado. Os lugares que visitei, os restaurantes em que comi e os vinhos que bebi. Espero que seja útil caso alguém um dia queira fazer viagem semelhante. Se conselho fosse bom a gente vendia, já diz o ditado; mas se minha opinião é válida, saibam que, se eu voltasse para lá hoje, faria quase tudo igualzinho.

Chegamos ao amanhecer do dia 27 de agosto à estação ferroviária de Dijon, vindos de Milão. Acho que este é o único ponto desta viagem que eu mudaria. Viajamos em um trem velho, de segunda classe, cheios de bagagem... a cabine é apertadíssima, tivemos que colocar as malas em uma das camas que estava destinada para nós e minha filha dormiu com a minha mulher. Ainda bem que viajamos durante a noite - o sono vem de qualquer jeito -  e até que conseguimos dormir um pouco, pois a cabine é muito desconfortável. Tomamos um café da manhã na estação mesmo (as estações de trem - essas sim - são muuuuuito melhores que as daqui), enquanto aguardávamos a locadora (Europcar) abrir para pegarmos o carro que já havíamos reservado do Brasil. Esta locadora foi dez, muito simpáticos e atenciosos, com certeza um serviço melhor que o da Avis, que eu havia utilizado da última vez. Pegamos um Toyota Verso, uma station wagon (precisávamos de um porta-malas grande) parecida com o Corolla, a diesel, um ótimo carro.

A Gare de Dijon - melhor que aeroporto daqui
Como nosso check-in no hotel em Beaune seria às 14h, durante a manhã passeamos pelo centro de Dijon - era um sábado, estava um movimento gostoso. Fizemos compras na Galleries Lafayette (na França elas estão por toda a parte) e eu já ganhei o dia quando o vendedor, espantado, me disse que eu falava francês muito bem - "mais vous êtes brésilien!", como se brasileiros soubessem falar apenas tupi-guarani. Conhecemos o mercado de Dijon, famoso por sua estrutura metálica projetada por Gustave Eiffell, o mesmo da torre; a variedade de gêneros, alguns que inclusive consideraríamos "exóticos" no Brasil, é fascinante e apetitosa. E falando em apetite, ao sair do mercado fomos à centenária lojinha da Maille e almoçamos no Restaurant de la Porte Guillaume.
Estrutura metálica de Gustave Eiffell no Les Halles de Dijon
Poulet - frango - de Bresse
Pâtisserie
Fromagerie
Boucherie - rins, fígados e timos de todos os bichos...
Comemos jambon persillé (uma terrine de presunto com crosta de salsa) e bouef bourguignon. Durante a refeição, tomei um Volnay "Les Famines" e um Pommard "Les Noizons", ambos do Domaine Buisson, e minha primeira impressão dos vinhos da Borgonha foi fantástica. É intrigante como uma mesma uva, na mesma safra, manuseada pelo mesmo produtor, produz vinhos tão diferentes, mesmo se cultivadas a tão pouca distância (os vinhedos de Pommard e Volnay são separados por metros apenas). Mais tarde eu entenderia o porque, mas agora eu estava embasbacado com uma taça de vinho rubi clarinho, frutado, com taninos suaves, e outra taça de cor bem profunda, com aromas terrosos e de couro.

Após o almoço, fizemos mais umas comprinhas e pegamos o carro para nos dirigir à Beaune, que é o "coração" da região vinícola da Borgonha.

A Côte des Nuits, assim chamada devido ao vilarejo de Nuits-St.-Georges
O caminho de carro de Dijon à Beaune já é lindo, passando por diversos villages - Gevrey-Chambertin, Morey-St.-Denis, Chambolle-Musigny, Vougeot, Vosne-Romanée, Aloxe-Corton... com vinhedos dos dois lados da estrada, a D974, também chamada de "Route des Grand Crus". A viagem que leva uns 40 minutos levou uma hora e meia, devido às paradas para fotos nos vinhedos e vilarejos.

Gevrey-Chambertin vista do carro

Gevrey-Chambertin

Vinhedos Grand Cru de Morey-St. Denis, na divisa com Gevrey-Chambertin.
Ao fundo, a Montagne de la Combe Grisard

Nuits-St.-Georges
O hotel que reservamos em Beaune, a Hostelerie Le Cèdre, é fantástico. Gracias ao TripAdvisor, que nos serviu de bom guia para este lugar tão desconhecido aqui no Brasil. Foi difícil arrumar aqui alguma dica confiável. Até mesmo as revistas de turismo falam superficialmente sobre a região. O hotel fica super-bem localizado, em uma avenida periférica que interliga todas os caminhos que chegam à Beaune, mas há apenas uns 10 minutos à pé do centreville.
Antes de fazer o check-in demos uma volta de carro pelo centro de Beaune, que já nos pareceu uma linda cidade. O hotel também era lindo, mas linda mesmo, após quase 24 horas de viagem, foi a banheira - e logo depois a cama, pois não tinha como não descansar um pouco antes de sair para jantar.
Quarto espaçoso...

Fachada bonita...

Terraço aconchegante.
Fomos jantar no Le P'tit Paradis, outra dica do TripAdvisor, e ouso dizer que foi a melhor refeição que fizemos entre todas as nossas aventuras gastro-eno-turísticas. Comi um tartare de atum sobre salada de quinoa como entrada e um salmão persillée com risoto de cogumelos e ervilha torta; a patroa comeu um gaspacho de legumes com jambon e grissini como entrada e risoto de camarões com cogumelos como prato principal. Para a filhota, a chef preparou um prato de filé de bacalhau com purê de batatas que a baixinha - fanática por peixe - devorou como gente grande! Tudo regado a um Bourgogne Blanc '08 de Jean-Marc Roulot, o vinicultor-ator que já fez um filme no Brasil - Rio Sex Comedy. Um vinho fresco e mineral, com notas cítricas, sem muita madeira e muito bem equilibrado. Tudo estava maravilhoso. Depois ainda comemos como sobremesa uma panna cotta e um tiramisu aux fruits rouges, e o que chamou a atenção foi uma frutinha que eles usam para a decoração e que eu não conhecia - a physalis. Com o menu de entrada, prato e sobremesa a 28 euros por pessoa, mais o vinho que não saiu por mais de 15, vraiment ça vaut la peine!!!

O discreto - e delicioso - P'tit Paradis
Voltamos ao hotel por volta das 22h, com ordem de descansar, pois na manhã seguinte viajaríamos a Lyon.
Enfim, para o sucesso dessa nossa viagem à Borgonha, também demos uma sorte de contar com a ajuda de uma guia brasileira que vive em Beaune há um tempo, e que eu conheci pesquisando roteiros enoturísticos na internet. Depois, ela veio participar da Expovinis em março, pois o marido dela é viticultor, e eu fui até lá conhecê-la, e acabei fechando com ela um passeio de um dia entre os vinhedos da Côte - valeu muito a pena, segue o link: http://www.vidaboaviagens.com.br/vidaboa_viagens/VIDABOA_viagens.html
Num próximo post eu conto como foi esse passeio - o "Dia DOC".
Santé! Au revoir!


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Jesus!

Salut!
Fizemos a ceia do último Natal em casa, onde recebemos parentes e amigos, e ela foi indescritivelmente inesquecível. Em grande parte porque esqueci da minha irritabilidade gástrica sempre provocada por prossecos; em outra parte devido ao exagero puro e simples mesmo (embora eu ainda alegue que a causadora da minha "indisposição" foi a salsinha do risoto piemontês - delicioso - que a patroa elaborou).
O Dia de Natal não foi muito propício ao consumo etílico, aliás, ao consumo de qualquer gênero alimentício, bem como à aproximação de qualquer garrafa que não de água mineral. Como em seguida eu fui para a praia para o gozo de merecidas férias, retornando no dia 8, só então pude contabilizar as rolhas espocadas na ceia.
Consumimos naquela ocasião algumas garrafas de espumante, entre elas: o prossecco Bisol "Crede" - o danado - que agrada bastante quem gosta deste tipo de vinho, bem seco, ácido e um toquezinho que lembra até um pouco de maresia; Casa Valduga Premium Moscatel, docinho, nunca pode faltar em festa por causa da mulherada... este é bem fino, espuma densa, perlage fininho, é bom mesmo, não é enjoativo; na linha do docinho também foi um Malvasia Cavicchiolli, aromático mas bem mais grosseiro; para encerrar os brindes, Veuve Clicquot carte jaune (champagne sempre champagne) e a atração principal da noite foi um crémant de bourgogne que trouxemos de Savigny-lés-Beaune, da Parigot, um rosé obtido de maceração parcial de pinot noir (não é blend, como os champagnes rosés), fabricado pelo método champenoise, "enriquecido" com lamininhas de ouro, em garrafa cristal com rótulo metálico dourado, um luxo só! E não é só pirotecnia, não; o vinho é muito bom, um rosé robusto, frutado e com aquele arominha de levedura, que aguentaria até harmonizar com os tradicionais pratos da ceia natalina numa boa.
O crémant da Parigot esperando pra ir pra taça

Bom, mas como os espumantes ficaram nos aperitivos e no brinde, para acompanhar o jantar foi uma magnun de borgonha genérico do Jadot, que vai bem com tudo, e um bordeaux branco Château Bel Air, sauvignon blanc que refresca mas tem corpo para aguentar a refeição.
E no dia seguinte, seguindo prescrição da farmacêutica de plantão (minha irmã), uma ampola de xantinon aparou qualquer aresta... também recomendo!
Santé! Et au revoir!