domingo, 29 de abril de 2012

Nova Zelândia

Salut, mes amis!
Sempre me surpreendi com os vinhos neo-zelandeses por seus aromas exuberantes, sempre repletos de fruta, tão diferentes de outros varietais produzidos ao redor do mundo, principalmente os brancos. Entre estes, prefiro os sauvignon blanc de Martinborough, tão cheio de notas florais, cítricas, de maçã, pêssego e maracujá.
Hoje, por indicação de um amigo, procurei no Pão de Açúcar um vinho da Yealands e escolhi um gewurtz para preparar e acompanhar uma fondue de queijo aqui no friozinho de Campos do Jordão.
Com certeza o vinho não decepcionou; além dos aromas e sabores esperados de Martinborough, o vinho contava com um adorável aroma de lichia, além de uma acidez marcante que não deixa o vinho "mole" como muitos exemplares desta cepa ao redor do mundo, exceção à Alsace, expert nestes varietais.
Dizem que a vinícola, além de lindíssima, é totalmente auto-sustentável, o que a torna um destino fabuloso para o enoturismo. E parece que é muito confiável, além de ser uma "best buy", pois foi escolhida para fornecer um varietal de riesling para o PDA, rotulado como Clube dos Somelliers.
Este fica para a próxima, talvez para acompanhar um peixinho grelhado...
Santé! Et au revoir!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Lembranças

A primeira lembrança sobre o vinho em minha vida remete à minha infância, quando eu passava as tardes na casa do meu saudoso avô, já aposentado da dura labuta de vida inteira na carvoaria de sua família, a Carvoaria Baraldi, na tradicional Rua Natal, aqui em Santo André.
Eu tinha cerca de 6 anos, e meu avô, que veio para o Brasil ainda na barriga da nonna em 1901, tinha, portanto, uns 82.
À tarde, após o almoço, ele sentava numa cadeira nos fundos da casa e começava a preparar seu cigarrinho de palha, com a palha do milho que ele plantava ali mesmo no quintal, e secava sob um telhadinho junto com o fumo. Picava o fumo bem fininho, afiava o canivete no silex, desfiava a palha com o canivete afiado até ficar bem fininha... Tudo entre brincadeiras comigo - nunca vou esquecer dos piões e estilingues que ele me fazia com este mesmo canivete, as arapucas que armava no meio do quintal para pegar passarinhos só para soltar depois... Enfim, quando acabava de pitar o cigarrinho, já estava quase na hora da janta que minha tia preparava num velho fogão à lenha (este era a prova que eles ainda existiam na cidade na década de 80). A polenta mexida durante quase 1 hora com colher de pau, a salada de almeirão plantado na hortinha do quintal, os ovinhos de codorna que eu mesmo pegava no viveiro, um frango caipira... bons tempos em que tudo era brincadeira.
Antes de sentar à mesa, meu avô vinha com uma garrafa de um líquido escuro, misturava com água e açúcar e me dava para beber. Muitas vezes, quando havia sopa e não tinha nenhuma mulher olhando, ele derrubava um pouquinho do líquido no meu prato de sopa. Às vezes, surpreendido por alguém que o repreendia por dar vinho para criança, ele respondia: "ma che, fa bene...".
Foi assim, com o sabor agora duvidoso do vinho colonial, produzido artesanalmente pelos imigrantes italianos aqui do ABC, que comecei a tomar gosto pela coisa.
E num dia desses, ao abrir um vinho italiano à noitinha em casa, quase não consegui conter a emoção (como agora estou emocionado enquanto escrevo) com as lembranças que vieram à minha cabeça. "Fantástico!"... exclamei. A patroa perguntou se o vinho estava bom, e o curioso é que realmente não estava, era um bardolino simplesinho bem medíocre, mas foi mais que surpreendente a maneira como ele me trouxe de volta na mente as lembranças dos meus dias de criança. Quem assistiu o filme Ratatouille da Disney vai entender o que estou querendo dizer, como na cena em que o crítico gastronômico come uma simples ratatouille que lhe traz na lembrança os tempos de infância, uma queda, um machucado, o jeito carinhoso que nossa mãe nos preparava nosso prato preferido para nos consolar do choro...
Meu avô morreu quando eu tinha 9 anos - e eu acho que ele nunca soube o bem que me fez.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Da série "Músicas para degustar"

Salut!
Os amigos já devem ter ouvido as expressões "vinho de meditação" ou "vinho de contemplação". Eu devo ser muito tosco mesmo, pois não as entendo. Talvez porque depois da segunda taça de qualquer vinho eu já esteja em estado profundamente contemplativo...
Brincadeira à parte, sempre que eu pego algum vinhozinho para beber à toa, naqueles fins de tarde/ começos de noite, não acho que exista coisa melhor para ouvir do que Mozart. E dentre suas obras, aquela com a qual eu, livre pensador que sou, mais me identifico, é A Flauta Mágica.
Começo ouvindo a abertura, a ária de Sarastro e a mais conhecida ária da Rainha da Noite, mas lá pela terceira taça, quando os vapores etílicos começam a me anuviar os pensamentos... Ah! Aí eu deixo a seriedade da busca de Tamino à Verdade e coloco mesmo a ária do Papageno, o caçador de passarinhos glutão que só pensa em comida, vinho e... naquilo! A diversão é garantida.
Vejam aí no link abaixo se não é mesmo uma boa.
http://www.youtube.com/watch?v=5-Qq-DeEXhw&context=C4b68950ADvjVQa1PpcFNVXJpnS2-QiXeXogxO7uDHVW3RL9FKNVw=
Santé!

Jantar de quarta

Salut, mes amis!
Hoje recebi um e-mail mkt da Ville du Vin que era uma verdadeira indecência: uma foto imensa de um prato de carré de cordeiro, sugerindo um bordeaux para acompanhar... Na hora a boca salivou e as lombrigas reclamaram. Mandei o e-mail pra patroa (só de sacanagem) e o fenômeno se repetiu.
Resultado: saímos do trabalho e passamos no mercado de um amigo, cujo açougue sempre tem carnes ótimas, e saímos de lá com as costeletas de carneiro. Chegando em casa, coloquei as costeletas na churrasqueiras enquanto ela preparava um risotto alla milanese.
Coincidentemente - ou não - no sábado eu havia passado na Cave Jado, pois estou montando uma adeguinha e queria comprar uns vinhos para guardar, ao que lá me recomendaram o bordeaux Côtes de Bourg Château Lamblin Cuvée Hommage 2003. Como eu já havia tomado o Cuvée Thomas 2005 do mesmo produtor (inclusive ainda tinha uma garrafa em casa) acabei comprando uma caixa para deitar, mas as lombrigas já tinham se ouriçado...
Enfim, juntei a fome com a vontade de beber, e tive como resultado aquelas felizes ocasiões em que a harmonização do vinho com a comida atinge o ápice! A maciez e o defumadinho da carne tenra e o cremosinho da manteiga e do parmesão do risoto combinaram perfeitamente com o corpo e a tipicidade do bordeaux, este aqui sem exagero na tosta do carvalho e com um toque apimentado bem gostoso acompanhando os aromas de frutas pretas.
Só fiquei com pena da patroa que, grávida, não está bebendo... Em compensação, lavei a louça.
Au revoir, santé!

domingo, 15 de abril de 2012

Beaune - dia 2, parte 1

Salut!
Hoje vou começar a contar como foi nosso segundo dia em Beaune, um dia que nós passamos com a guia, conhecendo muitos vinhedos e algumas vinícolas na Côte d'Or. Ainda em que sempre mantenho um diariozinho de viagem, assim lembro tudo em detalhes.
O dia começou com o ótimo café da manhã do hotel Le Cèdre, e por volta das 9h30 a Carol da Vidaboa Viagens veio nos buscar para fazer o passeio que ela chama de "Dia DOC". Como eu havia lhe dito que no dia anterior já havíamos passeado um pouco pelo norte da Côte de Nuits, afinal tínhamos vindo de carro de Dijon à Beaune, ela achou melhor começarmos o passeio pela colina de Aloxe-Corton. 
Ali ela nos explicou, sobre um mapa instalado num quiosque apropriado para receber turistas em pic-nics perto da D115, muitas das ccaracterísticas dos terroirs da região, dando a explicação geológica dos diferentes tipos de solo (com o infalível exemplo do mille-feiulle, inclusive), inclinação, insolação, etc.
A face sul da colina de Aloxe-Corton

Mapa dos vinhedos e apelações de Aloxe-Corton
Como diz Hugh Johnson em seu "Atlas Mundial do Vinho" é aqui na colina de Aloxe-Corton (a única colina isolada da Côte de Beaune) que é quebrado o feitiço que impede o restante da côte de produzir um Grand Cru tinto. Este Grand Cru é o Corton, e o curioso é saber que até o séc. VIII a colina só produzia tintos. Foi o rei Carlos Magno que, ao conquistar a Borgonha, ordenou que ali se plantassem uvas para fazer vinho branco, pois o tinto lhe manchava a imensa barba branca. Ele já notara que aquela encosta era ideal para o amadurecimento da chardonnay, pois ali primeiro se derretia a neve invernal devido à ótima exposição ao sol. Os Grand Crus brancos se concenttram nas faces oeste e sul da colina, com maior inclinação e melhor insolação, enquanto que os tintos se espalham pela encosta leste.

A Carol anda com um kit de garrafas para explicar as apelações, e a baixinha já quis fazer pose, afinal, educação vinícola começa em casa...




Os enjambeurs - tratorzinhos com rodas enormes, usados para passar sobre as vinhas fazendo a colheita mecanizada - e caminhões circulavam a todo vapor trabalhando na vendange
Saindo da colina fomos a Vougeot, onde visitamos o Château du Clos Vougeot, antigo domínio dos monges cistercienses (a ordem de São Bernardo), que foram os primeiros a perceber e explorar as diferenças de terroirs da região. Atualmente, o château é a sede da Confrérie des Chevaliers du Tastevin, uma sociedade fechada que agrega as mais iminentes pessoas para o vinho bourguignon. A visita é muito boa, ainda mais para pessoas que, como eu, adoram história e Idade Média; eles mantém um pequeno museu e antigos equipamentos de vinificação, além de uma lojinha com uns souvenirs bem legais.

Uma prensa antiga e um tastevin gigante
Hoje em dia o vinhedo do château é dividido em inúmeras parcelas pertencentes a dezenas de proprietários
Mas vinho que é bom, até agora nada... eu já estava tremendo e com a garganta seca quando a Carol falou que em seguida pararíamos para fazer uma degustação no Domaine Bertagna, ali mesmo em Vougeot. 
Degustamos dois Grand Cru tintos, o Corton e o Clos Saint Denis (aquele que emprestou o nome ao vilarejo de Morey), três Premier Cru, o Nuits-St. Georges, o Vougeot e o Vosne-Romanée e o Premier Cru branco Vougeot "Les Cras", um dos raríssimos vinhos brancos produzidos na Côte d'Or ao norte de Beaune. Todos grandes vinhos, demonstrando um equilíbrio e uma elegância para mim até então desconhecidos, com muitas camadas aromáticas de frutas, terra, couro e carvalho, a acidez sempre muito bem balanceada com o tanino. O branco se mostrou untuoso, com notas de mel, manteiga, mas também frutas brancas e um toque mineral. Enfim, comprei ali três garrafas, afinal ainda não sabia o que o restante da viagem me reservava.


Vinhos degustados na loja do domaine

Fachada do Domaine Bertagna em Vougeot
Entrada de um "clos" - vinhedo fechado - "monopole" - propriedade única - do Domeine Bertagna, raríssimo cru branco da Côte de Nuits


Saindo deste Domaine passamos por Vosne-Romanée e por seus míticos vinhedos, conhecendo as modestas (!?) instalações do Domaine de la Romanée-Conti e de seu proprietário, Monsieur de Villaine. Paramos para tirar fotos em Romanée-Conti e aproveitamos para experimentar uns bagos do pé no vinhedo de Romanée Saint-Vivant, do outro lado da rua, chamada "la Romanée", um antigo caminho das tropas romanas, bem ao fundo do vilarejo de Vosne-Romanée. É muito Romanée para a cabeça... As uvas estvam meladas de tão doces, tanto que em diversos vinhedos a colheita já havia começado.

Fachada do DRC no vilarejo de Vosne- Romanée

Chupando pinot noir no vinhedo de Romanée Saint-Vivant
A mítica cruz às margnes de la Romanée e do "clos" de Romanée-Conti
O vinhedo mítico, encravado entre Richebourg (á direita) e La Grande Rue e La Tâche (à esquerda)
Fomos almoçar em Nuits-St. Georges, e como já passava das 13h30, quase que o chef não quis nos atender! Eles são muito rígidos com o horário na França, e o horário do almoço lá se encerra às 14h. A Carol teve que insistir para nos servirem. Mas a comida (jambon persilé, coq au vin e crême brulée) estava ótima, assim como o vinho, um Vosne-Romanée Dominique Mugneret 07, inspirado no nosso passeio anterior.
Muitos restaurantes são instalados em antigas caves
O final deste inesquecível dia de enoturismo eu pretendo contar num próximo post, enquanto isso eu vou esperando maturar esses vinhos fantásticos que eu trouxe e que estão deitados aqui na minha adega. Afinal, ser enófilo também é praticar a paciência, assim como os monges enólogos borgonheses já faziam há séculos...
Santé!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Da série "Músicas para degustar"



Em homenagem aos nossos amigos patrícios, hoje a música foi inspirada num Altano tinto que acabei de tomar:

http://youtu.be/3zsZFUlL_eE

(acho muito bacana estas "releituras" que a moçada faz da velha-guarda).

Enfim, outro dia vi no site da Mistral uma recomendação para esta linha "Altano" da Symington, mesmo produtor do Porto Graham's, a R$50,00 a garrafa.
Outro dia experimentei o Altano branco num restaurante aqui de Santo André que tem um ótimo buffet de peixes e frutos do mar. Um vinho fresco, equilibrado, frutado e muito aromático, tanto que acompanhou muito bem desde a entrada (saladinha de polvo, kani e outras saladas), passando por peixe grelhado, paella e até um salmão com molho cremoso.
Enfim, comprei umas garrafas do branco e do tinto também, o qual abri a primeira garrafa hoje. Realmente é um ótimo custo/benefício. Um robe rubi/violáceo bonito, frutado porém bem equilibrado com uma acidez gostosa e taninos no ponto, com uma ligeira lembrança do envelhecimento em carvalho. Mandou muito bem com a sagrada pizza (toscana) da 4.a feira. Pois é, fiquei com vontade de provar o Reserva.
Agora estou aqui, blogando (como gostaria de fazer com maior freqüência, o que minhas atribulações diárias não permitem), ouvindo uma canção portuguesa e tomando um Porto Tawny com um chocolatinho remanescente da Páscoa... Jesus-Maria-José!

Santé, mes amis!