sexta-feira, 29 de junho de 2012

M. Chapoutier Bila-Haut '06

Salut, mes amis! 

 

Numa noitezinha fria de junho me bateu uma vontade de beber um vinhozinho que esquentasse um pouco mais minhas orelhas do que aqueles que eu venho tomando ultimamente. E que tivesse muita "substância".
Sinceramente, ainda não desenvolvi memórias olfativa e gustativa a ponto de acertar na mosca todas as vezes, mas acho que devagar, pesquisando e me apoiando em conselhos de quem entende, aos poucos eu vou chegando lá.
Digo isso porque escolhi este Chapoutier produzido no Domaine Bila-Haut, na AOC Côtes du Roussillon, Sul da França, com syrah, grenache e carignan cultivadas em solo argilo-calcário composto com xisto e gnaisse, o que normalmente deveria endurecer um pouco o caráter destas cepas com características minerais.
Já de olhar o vinho na taça sua potência pode ser percebida pela densidade da cor e das muitas lágrimas que se formam no copo - um bom indício de que a escolha estava correta. O primeiro aroma que me veio à mente foi o tabaco com chocolate e na remexida da taça se desprenderam os aromas de compota de frutas vermelhas e vegetais (este último francamente não me gusta mucho nos tintos...) Na boca o álcool mostra bem sua presença, afinal são 14,5%, mas a acidez de que tanto gosto nos vinhos franceses também aparece bem. Os taninos respondem prontamente à chamada, com firmeza. O retrogosto reforça a nota vegetal, denotando também um pouco de pimenta.
Um vinho potente mas não muito agressivo às bochechas (este é meu "controle de qualidade" quanto aos taninos), ótima pedida para uma noite fria de sábado. Ainda mais acompanhando um festival de rock pela TV. Acabei ficando curioso para provar os esotéricos "Occultum Lapidem" e "v.i.t" (visitare interiores terrarum), tops de linha produzidos por Chapoutier no mesmo terroir com vinhas velhas.
"Em uma noite especialmente boa,
Não há nada mais que a gente possa fazer...
...Senão eu, quem vai fazer você feliz?"
(o link abaixo é de uma versão mais light da canção, para não agredir os ouvidos seletos dos leitores do blog..)
Santé, mes amis! Et à bientôt!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Souvenirs de Carcassonne


Salut, mes amis! 
Hoje vou escrever alguma coisa sobre minha viagem à Carcassonne - já tem algum tempo, mas tem coisas que nem ele consegue apagar da nossa retina. Embora eu sempre faça um diarinho de viagem, afinal nunca se sabe ;)
Carcassonne é uma cidade muito antiga - no ano 800a.C. a colina em que se situa já era um importante vilarejo de intercâmbio comercial; esta colina foi fortificada pelos romanos em 100a.C., dominada pelos sarracenos no séc. VIII e passou ao controle do conde de Trencavel no início do séc. XI. Na Idade Média foi configurada como ainda hoje a encontramos sobre a colina, sendo que mais recentemente a cidade nova se desenvolveu em seu entorno. Se situa no Languedoc, região sudoeste da França, uma região de cultura muito rica, devido às muitas influências que sofreu ao longo dos séculos. Região de fronteira com a Espanha, que chegou a ser ocupada pelos árabes quando os mouros dominavam a península ibérica; durante a Idade Média, foi o chamado "país cátaro", sendo o catarismo uma religião cristã que foi depois julgada herética pelo papa e brutalmente aniquilada em meados do séc. XIII, deixando contudo muitos rastros. Sempre foi muito independente em relação ao reinado central da França, o que incentivou e fez floresecer esta pluralidade cultural.
Enfim, saímos de Barcelona com destino à Carcassonne em um dia 19 de julho - pleno verão - sob um sol escaldante mas com um clima bastante úmido do litoral catalão e seguimos rumo ao clima seco do interior do  continente. É impressionante como a paisagem muda em poucos quilômetros de viagem! Até o lado espanhol da fronteira a vista é bastante árida, uma terra clara e bem seca, com uma vegetação parecida com a do cerrado: árvores baixas, retorcidas e espinhentas. Conforme se vai aproximando da França, aos pés dos Pirineus, os riachos tornam-se mais numerosos e a vegetação mais verde. Passamos por Perpignan e por uma região de lagos próximos à costa, com sentido à Narbonne, onde deixamos a A9 e tomamos a A61 com sentido à Carcassonne.
Chegamos na cidade pela parte velha, “La Cité Medievale”,  que é a porção turística da cidade, ainda protegida pelas velhas muralhas (les remparts), dentro das quais se situa o Hôtel de la Cité. A primeira e surpreendente visão que tivemos da Cité a parir da estrada foi dos torreões das muralhas. Que visão magnífica!

Passeio de charrete pelas remparts
 Deixamos o carro num estacionamento externo à cité, onde não entram carros particulares, apenas os couriers do hotel. Fizemos o check-in e tivemos outra agradável surpresa: o quarto também era magnífico. Após um breve “reconhecimento” do hotel, saímos para dar uma volta pela cidadela, pois já estávamos no meio da tarde e a Cathédrale de Saint-Nazaire, nossa programação para o dia, fecha às 18h00, embora o dia avance fácil até às 21h00 nesta época do ano. Visitamos a bela catedral construída em estilo gótico, em seguida o Château Comtal e demos uma volta completa no interior das muralhas, confirmando nossa primeira impressão de que a cité era mesmo linda.

Belos vitrais na catedral
O Château Comtal
Voltamos ao hotel, pegamos uma piscina para nos refrescar do calor de cerca de 40oC e descansamos um pouco antes do jantar.  Saímos para jantar no “Les Terrasses”, na Place Marcou, e embora estivesse calor, comi cassoulet acompanhado de um Château des Colombes 2008, um corbières quase preto, muito tânico e estruturado, depois de uma entradinha “levinha” de salada forrada com foie gras e foie de vollailes – justo eu, que não gostava de miúdos de aves; não até ir para a França, sabem como é... "preconceitos" que a gente conserva desde a infância.


Vistas do Hôtel de la Cité, com a catedral e o château ao fundo
Quanto à vinicultura, esta região é conhecida pela sua "flexibilidade", sendo a viticultura influenciada pelo estilo bordalês na sua porção mais ocidental, com influência atlântica, enquanto que nas regiões sul e leste recebe mais influência mediterrânea, tendendo então para as características da região do vale do Rhône. Na região se encontram solos argilosos, calcários, xisto, marga e arenito; o relevo acidentado proporciona todo nível de insolação. Lá se planta desde cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot e malbec (côt), características de Bordeaux, até grenache, mourvèdre, syrah, cinsault e carignan. Existem também diversas variedades locais de uvas brancas, mas se planta também cepas internacionais mais difundidas, como a chardonnay, muscat e viognier. Os vinhos doces são importantes na região - os brancos baseados em muscat e o Banyuls, considerado o melhor vinho doce natural francês, feito de grenache noir. No início do século, era  a maior região produtora em volume de vinho barato, normalmente misturado com vinhos de outras regiões e países para ganhar cor e ser vendido ao proletariado francês. Nas últimas décadas, vem recebendo um maior cuidado para se limpar desta imagem, recebendo renomados produtores de outras regiões e até estrangeiros que buscam uma maior qualidade nesta região em que se plantando, qualquer uva dá. A grande quantidade de vinhos regionais (vin de pays) e apelações tabém é um atrativo para produtores que buscam a experimentação, o que está dando ótimos resultados, visto o Mas de Daumas Gassac, próximo à Montpellier, considerando um grand cru do Languedoc.

Videiras no pé das muralhas
Voltando à nossa estada, no dia seguinte descemos cedo para o nosso petit déjéuner no Chez Saskia, a brasserie do hotel. Se tratando de um café da manhã francês - digo isso porque na França os cafés nos hotéis são sempre mais "parcimoniosos" - estava ótimo, com uma boa variedade de pães, croissant, charcuterie, pain au chocolat, geleias, frutas e iogurtes. Saímos então rumo à Rennes-le-Château, um famoso destino esotérico e turístico nas montanhas do Languedoc, mas aí já é assunto para outro post. Voltamos para Carcassonne à tardinha, e enquanto a patroa foi descansar com a filhota, eu dei uma volta pelo lado externo das muralhas, entre o intenso movimento de turistas como eu. Voltando ao hotel, relaxamos um pouco na beira da piscina, tomando uma tacinha do famoso crémant de Limoux – para muitos, o primeiro vinho borbulhante já inventado, feito com a uva mauzac, exclusividade da região, chardonnay ou chenin blanc.

 
 
 

 

Vistas das muralhas, ruelas e a Porta de Narbonne
Fomos jantar na Place du Plo, no “Le Balthazar” e eu comi outro cassoulet (este levava cordeiro ao invés de pato) e desta vez eu pedi um vinho regional rosé encorpadão para acompanhar. As meninas comeram crèpes. Fui novamente dar uma volta para tirar umas fotas noturnas até a Pont Vieux, uma bela ponte de pedra – a vista da cité no topo da colina é de tirar o fôlego. Voltamos para dormir felizes com a certeza de termos passado dias memoráveis neste lugar de uma energia muito especial, e certos que no dia seguinte nossa viagem recomeçaria – agora rumo a Bordeaux.
La Cité vista do pé da colina
Desta estada, tiramos a conclusão que Carcassonne é mesmo um lugar inesquecível. Escrevendo este post me volta à mente esta linda e surpreendente vista da cité - afinal quem diria que no século XXI ainda a encontraríamos tão perfeitamente conservada, tal como um castelo das princesas (a Cité foi restaurada pelo arquiteto Eugène Violet-le-Duc, em meados do século XIX). Eu costumo brincar que nasci na época errada, pois adoro a época medieval, e pouco antes da viagem estava absorto em leituras de romances históricos sobre o graal, templários e cátaros, inclusive acabara de ler "Labirinto" de Kate Moss, uma história que se passa naquela região e isso reforçou minha paixão à primeira vista. Me lembro dos cheiros de ervas e lavanda, dos sabonetes e cosméticos de óleo de oliva, da culinária regional, dos vinhos, da simpatia e da receptividade de seus habitantes... Enfim, é um lugar para o qual voltaríamos com certeza - e espero que um dia retornemos mesmo.
Santé, mes amis! Et à bientôt!

sábado, 16 de junho de 2012

Bourgogne Hautes-Côtes de Nuits - Domaine Nudant

Salut, mes amis!
Esse aí eu tomei numa noite dessas aqui em casa, afinal eu já o tinha comprado há algum tempo na Cave Jado e depois, na Expovinis, tive a oportunidade de degustá-lo. Estava ansioso para abrir uma garrafa e tomar no aconchego do lar, com toda paciência e contemplação que uma boa garrafa de mosto fermentado de uvas frescas e sãs merece.
Este é um borgonha regional feito pelo Domaine Nudant, em Ladoix-Serigny, pertinho de Beaune, com pinot noir proveniente das Hautes-Côtes de Nuits, a porção de terra mais elevada nas encostas da Côte d'Or, entre Beuane e Dijon. Para este vinho, as uvas vem preferencialmente de Meuilley, pertinho de Nuits-St. Georges, lugar de solo argilo-calcário, com boa exposição sudeste. Safra 2009.
O vinho tem uma bela, brilhante e clara cor granada, sedosa e apetitosa! Tem aromas de frutas vermelhas e um toquezinho de especiarias, e na boca demonstra taninos bem finos e uma textura muito sedosa, confirmando as notas de morango e cereja no retrogosto. Muito bom vinho, com estrutura para ficar deitado por mais algum tempo. Este eu tomei acompanhando uma pizza de cogumelos - borgonha sempre vai bem com cogumelos, assim como outros pratos típicos da região, como carne em molho, queijos não muito curados...
Pena que o preço é salgado, mas se tratando de borgonhas, não temos muitas opções abaixo dos R$123 que este vale na Cave Jado - não com esta qualidade.
Santé! Et au revoir!

domingo, 10 de junho de 2012

Pont de Gassac 2010

Salut, mes amis!
Esse aí debaixo eu tomei neste último final de semana, curtindo um friozinho daqueles lá em Campos do Jordão. Estávamos com aquela  preguicinha de sair de casa, então preparamos um risoto, umas costeletas de cordeiro e eu abri o bonito aí, afinal um vinhozinho do Languedoc parecia o mais adequado para a peleja.
É um vin de pays d'Hérault, produzido por um dos mais famosos "domaines" do sul do França, o Mas de Daumas Gassac, chamado "Pont de Gassac", o segundo vinho da casa. Esta propriedade e seu proprietário são famosos há algum tempo, e tem gente que diz que seu primeiro vinho é o único "grand cru" do sudoeste francês. Aimé Guibert, o dono, um tiozinho ranheta porém simpático que ficou conhecido no documentário "Mondovino", de Johnatan Nossiter, ralhando contra a recente "elitização" dos vinhedos da região, cada vez mais disputados por estrelas do cinema e multinacionais que pouco se interressam em manter as características do terroir - e preferem fazer um vinho globalizado - ao contrário de pequenos produtores como ele, que desde que se associou com o professor Émile Peynaud, da Universidade de Bordeaux (um dos pioneiros da enologia), começou a demostrar que a região era capaz de produzir grandes vinhos.
Bom, voltando ao assunto, o vinho em questão apresenta uma bela e profuda cor púrpura e me surpreendeu pela maciez - por se tratar de um corte de cabernet sauvignon, merlot e syrah, além de ter estagiado em carvalho, eu esperava um vinho mais tânico e raçudo, mas o que se destacou a princípio foi a doçura e a fruta abundante - ameixa, amora e um fundinho terroso; mas não deixa de ser um vinho equilibrado e fez boa frente ao prato de cordeiro e risoto de cogumelos. Uma boa pedida para quem gosta de vinho frutado mas não enjoativo como uns sul-americanos que a gente vive bebendo por aí. Atualmente custa R$99 na Mistral.
Santé!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Château Figeac - este se bebe de joelhos (e com a outra mão levantada para o céu...)



Estabelecido na margem direita do Garonne, AOC Saint-Émilion Premier Grand Cru Classé, na divisa com Pomerol, às vistas de Pétrus e de fundos com o famoso Cheval Blanc (Hugh Johnson e Jancis Robinson chegam a dizer que este vinho é o que chega mais perto do famoso cavalo branco).
Um Saint-Émilion com cara de margem direita devido à boa porcentagem de cabernet sauvignon e cabernet franc (35% de cada) somadas à merlot, predominante nos outros vinhos da região, todas cultivadas num solo arenoso de aluvião com pedregulhos (graves) tal como acontece em Péssac-Léognan e até uma parte de Margaux, por exemplo - o que também lhe confere um certo caráter mineral.

Château Figeac
Este terroir e este corte proporciona um vinho raçudo porém muito elegante, com intensos aromas de ameixa, groselha, amora, pimenta, cedro, o boisé esfumaçado devido a um ano e meio de élévage em barricas novas... Na boca, os taninos bem estruturados, um final longuíssimo... Uma aula de vinho! Ao se provar se comprova tudo o que se escuta falar de um bordeaux de qualidade.
Este eu comprei por uma módica quantia quando estive em Bordeaux e tivemos a oportunidade de sermos recebidos no Château pelo próprio Mr. Manoncourt, apenas dois meses antes de sua morte - que Deus o tenha. Hoje quem comanda os negócios são sua filha e seus netos, e seus vinhos tiveram uma magnífica valorização nas safras mais recentes, chegando a custar 200 euros en primeur na safra 2009, em Paris.


Ali no cantinho superior esquerdo, pertinho do Cheval Blanc, está o Figeac

O Château se assenta sobre um bolsão de graves (cascalho) o que favorece a cabernet sauvignon
Os mapas foram extraídos da 6.a ed. do Atlas Mundial do Vinho de Hugh Johnson e Jancis Robinson
Château

Cuverie

Chai

Raridades na cave

Pomerol fica bem ali depois dos vinhedos de merlot

"Perdido" entre tantos châteaux...


domingo, 3 de junho de 2012

Almoço no Oui! Chalela

Salut, mes amis!
Hoje fomos conhecer um restaurante inaugurado recentemente aqui em Santo André, o Oui! Chalela, do chef Alexandre Chalela, ex-Baby Beef e conhecido por suas constantes aparições no programa do "bonitinho" Ronnie Von.
Comemos muito bem. Depois de um couvertzinho de pão preto com mel e manteiga (com um pão quentinho delicioso), pedi um tagliatelli com frutos do mar, a patroa pediu um due de risotos (um risoto de limão servido com 2 belos camarões empanados e outro risoto de cebola caramelizada e brie servidos em cocottes individuais) e um filé de abadejo ao molho de camarão e purê de batatas para a pequena. Não há defeito algum a destacar nos pratos, desde a bela apresentação. Talvez o único ponto a ser aprimorado é o atendimento dos garçons, que ainda estão meio perdidos.
Para acompanhar o prato, escolhi um Bordeaux Baron Philippe de Rotschield Légende sauvignon Blanc 2010, um vinho refrescante e cítrico que foi muito bem com o tempero dos frutos do mar e com o calorzinho gostoso que estava fazendo. O somellier é muito atencioso e me disse que pode-se levar o vinho de casa, mas a rolha é meio salgada: R$45,00.
Altamente recomendado, só espero que o restaurante se perpetue nesse endereço que é meio "zicado" - vários outros empreendimentos no local não vingaram - R. das Esmeraldas, no Bairro Jardim, em Santo André.
Então, boa sorte ao chef!
Au revoir, mes amis! Santé!

Tagliatelli com frutos do mar

Due de risotos

O filezinho de peixe da menina - tudo com uma apresentação muito bonita

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Borgonha - Visita à Bouchard Père et Fils

Salut, mes amis!
No dia seguinte ao “Dia DOC”, nosso passeio pela Côte d’Or (veja http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/04/beaune-dia-2-parte-1.html e http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/05/beaune-dia-2-o-dia-doc-parte-2.html), visitamos uma antiga fábrica de mostarda, a Moutarderie Fallot, os Hospices de Beaune e um grande négociant de vinhos estabelecido no centreville. Todas estas visitas são altamente recomendáveis para quem visitar Beaune.
Na moutarderie pudemos comprovar a imensa seriedade e o cuidado que os franceses tem com qualquer coisa quando o assunto é gastronomia. A mostarda produzida na região obedece uma legislação de AOC, e só pode ser preparada com vinagre ou suco de uva produzido na Borgonha. A visita é muito legal também para as crianças, que inclusive preparam um pouquinho da sua própria mostarda e, como todas as visitas por aqui, acaba em degustação.

Les enfants et mamans fazendo dua mostarda
Os Hospices de Beaune atualmente se transformaram num bem conservado museu, já que desde a década de oitenta as instalações hospitalares foram transferidas para um moderno hospital na periferia, tudo custeado pelo tradicional leilão de vinho que ocorre no mês de novembro. O hospital beneficente foi fundado em 1443 por Nicolas Rolin, chanceler do duque Filipe III - o Bom - da Borgonha e sua esposa, Guigone de Salins. A construção tem forte influência flamenca, uma vez que o ducado borgonhês àquela época se estendia até os Países Baixos. Os hospices possuem ainda hoje inúmeros vinhedos que foram doados pelos nobres proprietários ao longo dos séculos, que produzem valiosos e cobiçados vinhos, cujas receitas o mantem em atividade.

A construção com o inconfundível telhado em padrão flamenco

"O último julgamento" de Van der Weiden, a "jóia da coroa" entre as obras de arte dos hospices
Depois do almoço fomos à sede da Bouchard  Pére et Fils, grande firma “négociant” que desde 1985 pertence à família Henriot, de Champagne. Eu já havia marcado esta visita desde o Brasil e fomos muito bem atendidos por uma guia muito simpática e de nome incomum, segundo ela, Mme. Blandine.  Graças a Deus meu francês iniciante foi suficiente para acompanhar suas explicações e até para fazer algumas perguntas e tirar dúvidas - até me surpreendi, embora eu mesmo diga para a minha prof de francês que depois de umas taças de vinho eu falo francês que é uma beleza... Mme. Blandine me explicou muito bem a história do domaine, nos mostrou as caves e acompanhou uma ótima degustação ao final da visita. 

O "domaine": à esquerda, casa de veraneio de Monsieur Henriot, à direita, a sede da vinícola - tudo interligado por quilômetros de caves no subsolo
O portão das caves

A maison guarda vinhos até do século XIX - de 20 em 20 anos eles são abertos, provados, as garrafas são completadas com o mesmo vinho e re-arrolhadas
Experimentei sete vinhos dispostos em ordem de complexidade, começando por um Côte de Beaune Villages ’07 de cor rubi bem claro e brilhante, bem ligeiro e frutado, que já parecia ótimo para o consumo. Em seguida tomei um “Beaune du Château” premier cru ’07, que se mostrou com uma cor mais densa, sendo um vinho mais encorpado, com mais estrutura para guarda e que já demonstrava maior complexidade aromática, apresentando notas terrosas e animais.  Depois me foi apresentado um grand cru Le Corton ’07, de cor rubi-violácea profunda, maior estrutura tânica, com aromas terrosos, de couro e especiarias, um grande vinho para se desenvolver por muitos anos em garrafa ainda. Passamos então para o último tinto, um Nuits-St.Georges 1er cru “Clos des Argillières” ’03; por se tratar de um 2003, ano excepcional na Côte d’Or, em que o calor foi muito grande e as produções mínimas, é um vinho com muito tanino que ainda deve passar um bom tempo na garrafa para liberar a complexidade aromática de terra, couro e especiaria que ele insinua.

Vinhos para a degustação
Depois de uma aguinha e de uma boa conversa, afinal eu já estava negociando a compra de umas garrafinhas e “xavecando” uma caixa de madeira de brinde, degustamos os brancos, as jóias da Côte de Beaune. O primeiro foi um Pouilly-Fuissé ’09, de um brihante amarelo palha, muito fresco e com um marcante aroma mineral. Em seguida provei o Mersault 1er cru “Genevrières” ’08, onde já começam a aparecer os aromas de frutas secas e amanteigados. E por último, um Corton Charlemagne ’07, de um amarelo já dourado lindíssimo, com aromas de frutas secas, que na boca demonstra um retrogosto delicioso de mel, com um final longuíssimo – o melhor da degustação.

 

 

"Pechinchas"

Acabei comprando seis garrafas, entre elas um “Vigne de l’Enfant Jésus”, um Pommard  Rugiens (que Blandine me recomendou deitar por uns 10 anos para não cometer um “infanticídio”) e um Corton Charlemagne. O pessoal ficou boquiaberto quando eu disse o quanto aqueles vinhos custariam no Brasil. Enfim, ganhei não só a caixa como também um bonito tire-bouchon, que MMe. colocou na minha sacola com uma piscadela...

O mapinha também foi brinde - assim com o tire-bouchon que a sympa Mme. Blandine me presenteou
Bourgogne
Como sempre, tudo acaba em degustação - Grâce a Dieu!
Santé! À bientôt!