domingo, 26 de agosto de 2012

Visita à Reims - Champagne Pommery, Café du Palais e Cathédrale

Bonjour, mes amis!
Hoje vou contar um pouco da nossa visita à Reims no verão passado. Era início de setembro, e acordamos cedo com dificuldade numa sexta-feira para fazer o trajeto Paris-Reims - no dia anterior tínhamos visitado a Eurodisney e retornado para o hotel, no 8ème de Paris, depois da meia-noite. Já era o décimo dia da nossa viagem à Europa, então já estávamos com um pouco de cansaço acumulado. Pedimos o petit déjéuner no quarto e nos aprontávamos enquanto comíamos, pois a visita estava marcada para as 10 horas.
Conseguimos sair do hotel às 8 e a viagem pela A4 correu sem percalços. Um fato pitoresco ocorreu quando saímos da autoroute para pegar a estrada para o centreville - perguntei para a moça do pedágio se aquele era o caminho certo para Reims e ela me respondeu categórica: "Noooooon", para ir a Reims eu deveria sair da estrada na próxima saída, ela me falou. Ah, vá! Esses europeus e seu pensamento cartesiano às vezes nos surpreendem...
Enfim, chegamos na sede da Pommery correndo, estávamos em cima da hora para a visita guiada em francês e sentimos então os efeitos da pontualidade europeia. O casal que estava comprando os tíquetes à nossa frente na fila falava uma língua estranha, acho que do leste, o pessoal não compreendia e acabou atrasando uns 2 minutos. Foi o suficiente para o guia descer com o grupo e nos deixar para trás. Tivemos que aguardar a guia em língua inglesa, às 10h30. Tudo bem, dá para entender, mas não é a mesma coisa...
Entrada da cave
Mme. Christine iniciou a visita explicando um pouco da história desta importante casa de Champagne. Fundada em 1858, era chamada anteriormente Pommery-Greno, em função das duas famílias proprietárias. Após o falecimento do marido, em 1860, Madame Louise Pommery assumiu o controle total da empresa, que passou a administrar de uma maneira inovadora, investindo principalmente no mercado de exportação, voltado aos britânicos. Nesta época, inclusive, ela encomendou uma grande reforma na maison, com influências arquitetônicas inglesas, e criou o champagne brut, diminuindo a dosagem de açúcar no liqueur de expédition, tudo para agradar aos fregueses. Mecenas do meio artístico, mandou decorar as paredes calcárias das caves com esculturas e promovia saraus nas instalações da empresa, costume que perdura até hoje. Mais recentemente a empresa passou para o domínio da Vranken, multinacional de bebidas fundada em 1976.
A maison está instalada sobre 18km de caves escavadas no período galo-romano (séc. XII, aproximadamente), de onde se retirava material de construção, há 30m de profundidade média e temperatura constante de 10oC. Nestas caves repousam cerca de 20 milhões de garrafas de champagne. Possui atualmente 55ha de vinhedos, produz cerca de 3 milhões de garrafas e recebe a visita de mais de 60.000 ao ano.
Letreiro antigo afixado na entrada da cave
"Festa de Baco", esculpida diretamente na rocha da parede da cave
"Silene"
"O Champagne", o tempo em que se bebia o vinho nas antigas copas baixas e largas
"Louise Pommery"
Mme. Christine...
...e a tradicional explicação sobre autólise, remuage e engarrafamento do champagne.
Os tesouros da maison, guardados a sete chaves: entre as garrafas, o primeiro champagne brut elaborado
Depois da visita à cave, degustamos 4 champagnes produzidos pela Pommery: o brut, um millésime '04, de extraordinária fineza, o rosé, que é elaborado com 40% de pinot noir e 60% de chardonnay, este um pouco mais estruturado, e um "extra-dry", com um pouco mais de açúcar na dosage, contudo bastante fino e equilibrado. Na lojinha, comprei uns badulaques como souvenirs, entre eles uma garrafinha de POP numa embalagem dourada que a patroa achou "uma graça" para decorar nosso barzinho em casa.
Este barrilzinho aí foi montado e entalhado por ocasião do 1.o aniversário da Independência Americana. Embarcado para Washington cheio de vinho, foi devolvido para a Pommery depois de encerrados os festejos dos quais participou
Entalhe do barril: "Europa" oferece uma taça de vinho à "América", sob os olhares da "Liberdade" e do índio americano, tudo sobre as paisagens e os vinhedos de Reims.
Madame Pommery

A bela arquitetura da Maison Pommery
Depois de terminada a visita, fomos almoçar no Café du Palais, tradicional brasserie localizada no centreville de Reims, bem em frente ao Palais do Tau e da praça da catedral. Comemos um excepcional tagliatele au foie gras et morilles à la crème, e só não sei se fui feliz na escolha do vinho, um chassagne-montrachet... A baixinha comeu um prato infantil de peixe que veio todo decorado como uma carinha de palhaço, ela adorou! A sobremesa também estava ótima, era uma espécie de sorbet com queijo branco e iogurte, com frutas vermelhas e calda quente... divina!
O Café du Palais
Le dessert
À tarde fomos visitar a Cathédrale de Notre-Dame de Reims, igreja no estilo gótico construída em meados do séc. XIII e tida como uma das mais representativas catedrais deste perído da França, ao lado de Chartres, Paris, Rouen e Amiens (ainda me faltam estas 2 últimas...). A vista imponente da catedral ao se chegar a praça é inesquecível, assim como são marcantes alguns sinais deixados pelos conflitos por quais passou esta igreja. 
Na 2.a guerra mundial, a catedral foi o último ponto de resistência das tropas francesas quando da invasão alemã na cidade, trocando de mãos por diversas vezes durante uma semana até a total subjugação pela werhmacht. Marcas de tiro ainda pontuam as fachadas da catedral como cicratizes, pois os champenois demonstram com orgulho sua importância na história militar francesa. A região foi importante foco de resistência nas guerras franco-prussianas e na 1.a grande guerra, quando a Batalha do Marne devastou a região e seus habitantes.
Em 1962 o Geneal de Gaulle recebeu o chanceler alemão na catedral de Reims para reafirmar a paz entre as nações, gravada na calçada defronte à catedral
Vista da fachada principal - portal leste - a partir da praça
Detalhe do portal - Jesus coroa Notre-Dame na ascenção aos céus
Como em toda catedral gótica, as gárgulas estão por toda a parte para expurgar o mal
Estudantes "flanam" à sombra da fachada norte
Cartaz explicativo afixado na parede da catedral



Interior da belíssima catedral
Depois da visita à Cathédrale, fomos dar uma voltinha pelo centreville, afinal a patroa já tinha visto uma filial da Galleries Lafayette... menos mal, fora de Paris os preços são melhores mesmo... chamou a atenção (como em Bordeaux) o tram, um tipo de bondinho moderníssimo que cruza as ruas do centro, sendo uma ótima alternativa de transporte urbano.


Centreville de Reims
Place Henri Deneux, belo exemplo da arquitetura champenoise
Mais uma vez ficamos encantados com esta belíssima região francesa. A aura de glamour que envolve o champagne no imaginário de todo o mundo parece ter se espalhado por todo o lugar, não apenas às famosas casas mundialmente conhecidas. Toda pequena propriedade, comércio ou local público é extremamente bem cuidado e bem arrumado, as cidades são incrivelmente limpas e lindas. O povo é acolhedor, educado e elegante, embora seja simples e receptivo ao turista. Da última vez em que estivemos na região era inverno, e mesmo a paisagem quase inóspita devido aos vinhedos em hibernação e à neblina constante encobria estas características da região: um povo que recebe bem, come bem, bebe maravilhosamente bem... do mais aristocrata ao mais simples vigneron, que também é um especialista em champagne, sem dúvida. Em suma, o champenois vive muito bem, e deixa isso transparecer nas vilas em que habita.
Saímos daí ao final do dia revigorados para continuar nossa viagem em Paris.
Au revoir, mes amis! À la prochaine! 

domingo, 19 de agosto de 2012

Ossobuco, Brancaia Tre e Frescobaldi Pater

Salut, mes amis!
Esse meu blog já está fazendo novas vítimas... A postagem sobre o ossobuco que preparei há algum tempo fez sucesso entre a família, logo eu fui gentilmente solicitado a preparar este prato para o almoço do Dia dos Pais, na casa da sogra (para garantir, como sempre, o sogro foi pra churrasqueira). Mas não fiz feio e todo mundo - pai, mãe, sogro, sogra, cunhadas, irmãs e cunhados, além das crianças e da patroa, é lógico, adoraram o prato (ou fingiram muito bem). Desta vez, a sogra preparou uma polenta no fogão a lenha para acompanhar, e na verdade todos se esbaldaram mesmo...
Para acompanhar tão substancioso prato levei dois italianos -  é claro. Um Brancaia Tre 2006 e um Frescobaldi Pater 2009. Uma das regras básicas da harmonização de vinho e comida é tentar os vinhos da mesma região de origem do prato em questão.
O Brancaia é um IGT toscano, uma vez que, além da tradicional sangiovese, também leva cabernet sauvignon (10%) e merlot (10%) no corte. Possui uma bela cor rubi profunda, com lágrimas densas e abundantes, embora 13,5% de graduacao alcoólica. Notei aromas de frutas vermelhas, tabaco e chocolate, e na boca o álcool se destacou demais sobre os taninos já bem amaciados. Esse desequilíbrio me decepcionou um pouco, por se tratar de uma vinícola de grande reputação (enquanto o top da Brancaia, o "Il Blu" custa R$340,00, este deve estar custando uns R$80,00).
O outro vinho, o Pater '09, na mesma faixa de preço, de um lindo rubi brilhante, demonstrou maior frescor, aromas frutados de morango, amora e aquele aromazinho típico terroso dos toscanos. Mostrou taninos mais raçudos mas muito bem integrados com o álcool (13%) e a acidez. Este é produzido com 100% sangiovese e mostra mais tradição que o vinho anterior, exceção feita à embalagem moderna com screw-cap. Cabe aqui a lembrança que os Frscobaldi produzem vinho na Toscana há uns 700 anos "apenas"...
Na harmonização com o prato, eu diria que o Pater aguentou melhor o tranco. Sua maior rusticidade e acidez fizeram melhor contraponto à gordura do prato.. Não que o Brancaia tenha feito feio, mas como uma boa harmonização é aquela em que 1 + 1 = 3, ou seja, tanto o vinho quanto a comida devem ganhar com o casamento, então o Frescobaldi cresceu mais com a comida, enquanto o outro "amoleceu"; talvez se estivesse mais jovem, com taninos mais marcados, este se sairia melhor.
O preferido do dia
Au revoir, mes amis. Santé!

sábado, 18 de agosto de 2012

Da série "Músicas para Degustar": Xerez - até a Carmem bebia!

Salut, mes amis!
Engraçado como nosso cérebro às vezes faz umas cognições totalmente inesperadas... Hoje na aula de francês falamos en passant da ópera Carmem de Bizet e eu lembrei do Xerez, o vinho fortificado produzido lá pelas bandas da Andaluzia, sul da Espanha. Afinal, ela adorava beber um manzanilla na taberna do Lilas Pastia, lá pertinho das muralhas de Sevilha.
É um vinho ainda pouco apreciado por aqui e num curso da Wine School eu achei interessante a informação de que exportadores espanhóis estão investindo fortemente no nosso nordeste, onde o pessoal tem costume de beber destilados nas refeições. Como o Xerez é um vinho com maior teor alcoólico, esta estratégia está tendo êxito por lá e o consumo está se popularizando.
O Xerez é produzido pelo método da solera, que consiste em completar os barris parcialmente esvaziados pela evaporação por vinho mais novo do mesmo tipo, e assim sucessivamente até que o vinho mais antigo da solera chegue ao ponto de engarrafamento.
Quanto ao tipo, o Xerez é classificado como Fino, quando mais leve e delicado, extremamente seco; este vinho amadurece sob uma camada de levedura chamada de flor, que se desenvolve no barril. Por envelhecer protegido da oxidação pela flor, o Fino é um vinho fresco e deve ser consumido totalmente após aberta a garrafa. O Xerez Oloroso é fortificado acima de 15,5% de álcool, o que impede a formação da flor na superfície do vinho, daí sua característica mais acentuada de oxidação - o original é seco, envelhecido, mas a adição de vinho adoçado criou o Cream, versão degenerada para facilitar a exportação. O Manzanilla é um Fino muito seco produzido à beira do mar, em Sanlucar de Barrameda, daí dizem que ele recebe uma notinha salgada no paladar.
A categoria seguinte é o Amontillado, um tipo de Fino que pela grande qualidade suportou bem o envelhecimento, ganhando uma cor âmbar e notas de nozes.
Todos estes são produzidos a partir da uva Palomino, mas há um outro tipo de Xerez feito com a uva Pedro Ximénez, a PX, que resulta em vinhos mais escuros e adocicados. Este vinho também pode ser adicionado à solera do Amontillado, resultando num Xerez ligeiramente doce, chamado Medium.
Dizem que quando você estiver com dificuldade de harmonizar um prato com vinho, certamente haverá um Xerez dentre a paleta o qual se adequará perfeitamente à refeição. Não sou nenhum expert, mas quando quero petiscar umas azeitonas, umas anchovas, jamón... aí com certeza uma copita de Fino ou Manzanilla bem gelado cai muito bem! Entre os que eu já provei - e gostei - estão os da Bodegas Rey Fernando de Castilla, da Bodegas Hidalgo e da Gonzalez Byass.
E se um dia, mon ami, for tomar um Xerez, lembre-se que é um vinho de maior teor alcoólico e sigam o conselho da Carmem: prends garde à toi!
À bientôt!

Fontes: Atlas Mundial do Vinho e Le Petit Larousse des Vins

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Éléphant Rouge '08

Salut, mes amis!
Acabo de provar o Éléphant Rouge, vinho nacional produzido no Vale dos Vinhedos por Jean Claude Cara e vinícola Larentis.
Com um corte de cabernet sauvignon (70%) merlot (25%) e pinotage, o vinho apresenta um belo robe rubi, complexo no nariz, abriu aromas de frutas vermelhas, muita especiaria e um pouquinho de ameixa, um toquezinho mineral... Acho que não envelheceu na madeira. Ótimo corpo, muito bem equilibrado com uma acidez incomum nos vinhos brasucas. Creio que ainda vai evoluir muito bem.
Entra no meu rol dos grandes tintos nacionais.
Ia esquecendo de comentar o preço: R$38,00 a garrafa - ótimo custo/benefício!
Santé!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Morandé Terrarum Reserva cabernet sauvignon 2006

Salut, mes amis!
Hoje eu e a patroa saímos do trabalho inspirados para fazer um jantarzinho gostoso e como íamos passar perto do mercado do meu amigo Ivan, me veio a idéia de passar lá para comprar um carrezinho (uma das minhas carnes prediletas), mas desta vez acompanhado de um risoto de funghi secchi, que já tínhamos em casa.
Lá chegando, resolvi escolher um cabernet para preparar e acompanhar o prato e consultando meu Velvet Wine lembrei que tinha esta garrafa da Viña Morandé que devia estar no ponto.
Coloquei o funghi para hidratar num pouco do vinho e fui preparar a carne na churrasqueira, como também um molhinho chimi-churri com redução de balsâmico. Enquanto isso, a patroa prosseguia com o risoto.
O vinho demonstrou uma cor rubi muito profunda com uns reflexos granada, já aparentando certa evolução. Estava um pouco fechado a princípio, mas abriu demonstrando frutas vermelhas, ameixa, vegetal, tabaco e baunilha sem exagero. Na boca os taninos mostraram-se bem macios, com uma ótima acidez e álcool (14%) bem equilibrado. Mostrou um pouquinho de amargor no final, marcando o aspecto vegetal, mas não chegou a incomodar, pelo contrário, me lembrou uns toscanos com CS que já tomei, bem como uns chianti reserva que tem essa peculiaridade. Talvez não estivesse tão "macio" e demonstrando tanta fruta porque já tem 6 anos...
Confesso que os chilenos que eu tomo não são de alto nível, mas este vinho me surpreendeu pela boa acidez e pelo equilíbrio, geralmente experimento chilenos que ou tem álcool demais, ou taninos demais, e sempre tem fruta demais...
De fato, este Morandé harmonizou muito bem com este prato (tomei quase a garrafa toda) embora não seja um grande vinho. É sempre difícil tentar mensurar, bem porque me faltam elementos técnicos para dar uma "nota", mas este ficaria, digamos, com 85-86, 3 de 5 estrelas, conceito "bom", ou algo parecido. Custa R$53,00 na Imigrantes Bebidas.
Agora, o risoto da patroa, este é 10, nota 10!
Au revoir! Santé!