domingo, 30 de setembro de 2012

Nos vinhos, a beleza também está na simplicidade

Salut mes amis!
Também respondo à clássica questão "o que é um bom vinho?" com a resposta de que depende do momento e da companhia quando ele é bebido.
Minha mais nova constatação aconteceu hoje, com um Côtes du Rhône 2002 simplezinho que achei esquecido em uma caixa de papelão no meu depósito, junto com outras garrafas não mais famosas nem menos idosas do que esta.
Desde que meu menino nasceu minha casa tornou-se o ponto de encontro de parentes e amigos, então sempre temos muitos acepipes por aqui para receber as visitas ao bebê. Daí minha escolha por esse vinho: hoje tínhamos pães, queijos, patês, frutas secas, embutidos e geléias e achei que um Rhône combinaria com tudo, embora estivesse apreensivo pela idade do vinho, a fruta já deveria ter ido embora... Mas vá lá, eu não queria nada pretensioso mesmo.
Mas a certeza veio logo na abertura da garrafa: ao cheirar a rolha já fui teletransportado ao Sul da França pelos aromas de especiarias que o vinho exalava. Lembrei dos campos de girassol, dos vinhedos e das feiras em que ervas e outros produtos da terra são vendidos em bancas na rua. Na taça uma cor rubi profunda com um belo halo bem acastanhado confirmava a idade. Na boca, o vinho redondo, macio, agradou até quem não costuma beber por achar que eu só abro vinhos "secos demais". A garrafa secou quase que instantaneamente em meio à boa conversa e aos trabalhos de mastigação. Um momento agradável em família, com um papo descontraído e uma comidinha gostosa fizeram o vinho crescer demais.
Para mim, foi uma bela surpresa que só fez confirmar a máxima da resposta à clássica pergunta. 
À votre santé! À bientôt!

sábado, 22 de setembro de 2012

Languedoc-Roussillon, Sud de France: uma terra apaixonante

Salut, mes amis!
Há algum tempo eu venho tentando achar oportunidade para postar sobre este tema, e neste momento em que teremos em SP o festival Sud de France e que coincidentemente estou lendo uns livros com especial atenção sobre esta região, o apetite de escrever se concretiza.
Em 2010 tive a felicidade de conhecer parte desse lindo lugar, indo de carro de Barcelona à Carcassonne (onde fiquei hospedado), passando por belas paisagens desta região fronteiriça entre a França e a Espanha, conhecida antigamente como país cátaro (uma estrutura social-religiosa de meados da Idade Média), daí o nome Catalunha no lado espanhol e até a existência de um vin de pays "Côtes Catalanes" no lado francês.
A cultura da vinha no Languedoc-Roussillon remonta ao tempo das conquistas gregas no Mediterrâneo, mas é depois da ocupação romana no séc. II a.C. que a vinicultura realmente se desenvolve ao longo da Via Domitia, estrada que ligava Lyon à Espanha passando por Narbonne. Após a queda do império a região passou a ter uma importância secundária, posto que foi dividida em inúmeros territórios independentes que só se uniram à coroa francesa no fim da Idade Média e início da Idade Moderna. Mas só com a chegada da estrada de ferro à Perpignan em 1858 a atividade vinícola voltou a se desenvolver.
Mapa da região
A primeira impressão que se tem ao visitar a região é a diversidade topográfica e de micro-climas. Enquanto que do lado espanhol a planície e a aridez predominam até próximo da fronteira, depois dela o terreno se torna mais acidentado e os pequenos cursos d'água que descem das montanhas fazem a paisagem mais verde; enquanto que nos picos mais altos dos Pireneus costuma ocorrer neve, mesmo que nos contrafortes o tempo ainda esteja bom. As culturas frutíferas e de girassol se intercalam e ao longo da costa existem inúmeras lagoas (étangs), muitas delas de água salobra devido à proximidade com o mar. Dizem mesmo que os vinhos secos de Collioure tem uma notinha salgada. Surpreendentemente esta região coincide com o Banyuls, o famoso vinho doce natural (VDN) francês encontrado em diversos tipos, similar ao Porto, assim como o Maury, apelação próxima.
Étang na costa mediterrânea perto de Perpignan - a "maresia" influencia os vinhos desta região

Corte esquemático da região do Corbières - muita variação geológica
A cidade de Carcassonne é cercada por vinhedos, da AOC Malepère, enquanto que ao nordeste está o Minervois, que produz vinhos mais tenros e na direção sul-sudeste da "cité" fica a AOC Corbières que, exprimindo sua topografia dramática, repleto de picos e vales, com solos de calcário e xisto, gera vinhos mais duros e rústicos, com muita cor; na minha estada em Carcassonne tomei um muito bom - e quase preto! - do Château Étang des Colombes, localizado na sub-apelação  de Corbières-Boutenac; acompanhado um cassoulet foi uma harmonização perfeita! Ao sul fica a região de Limoux, famosa pelos brancos tranqüilos bastante cítricos e pelo Blanquette de Limoux, um espumante refrescante feito pelo método champenoise tradicionalmente com a uva mauzac, mas hoje se utiliza também bastante chardonnay em geral nesta região e chenin blanc em particular neste crémant.
Vinhedos vistos através das ameias da muralha da cité de Carcassonne

Vinhedos das Côtes de Malepère, pertinho de Carcassonne
Partindo de Narbonne em direção à fronteira espanhola pela autoroute A9, saindo de Corbières se passa pela região costeira do Mediterrâneo e pelas apelações de Fitou, Rivesaltes, Côtes-du-Roussillon, Côtes-du-Roussillon Villages, Maury e Banyuls, entre outras menores. Passando por Perpignan nota-se uma grande variedade de solos, facilmente perceptível pelo amarelo esbranquiçado do calcário e o cinzento mais escuro das argilas e xistos. A região do Roussillon é responsável pela produção de 90% de todos os vinhos doces naturais da França nestas apelações e ainda cultiva tradições curiosas, como o envelhecimento dos Maury em bombonas de vidro expostas ao ar livre.

 

Duas vistas do Château d'Aguillar - cujo nome provém do latim aquila (águia). Foi um baluarte da resistência dos cátaros durante a cruzada albigense. Castelos, ruínas e outros sítios como este são abundantes no Languedoc - alguns são vistos mesmo a partir da estrada.
Se, por outro lado, se toma a estrada no sentido norte em direção à Marseille, passando por Béziers, temos no interior as regiões (sub-apelações do Languedoc) mais relevantes de Saint-Chinian, Fougères, Terraces de Larzac, Pézenas e Pic-St.-Loup.
Falando em viticultura o Languedoc-Roussillon é uma colcha de retalhos de 250.000 hectares de extensão (a maior região vitícola do mundo). Nos últimos 25 anos uma nova geração de vignerons vem alterando a paisagem, substituindo vinhedos antes voltados para a produção em grande volume. Dada a variedade climática, lá se encontra tanto as uvas usuais das regiões vizinhas como antigas uvas autóctones da região. São comuns os vinhedos em que se encontra inúmeras cepas plantadas misturadas. Então, na sua porção mais ocidental, de influência atlântica e mais próxima do terroir bordalês, se encontra bastante merlot, cabernet sauvignon e malbec, chamada também côt. Do outro  lado, encostado no Rhône e na região da Provence, há carignan (a cepa mais plantada no Languedoc), cinsault, mourvèdre, grenache, syrah... E todas essas, juntas e misturadas com outras cepas tintas autóctones no interior da região - fer servadou, lledoner pelut e muscat à petits grains rouges, por exemplo. Quanto às cepas brancas (que somam apenas 15% do vinhedo), a chardonnay vem dominando a cena, uma vez que muitas vinhas de viognier vem sendo arrancadas em beneficio desta estrela internacional; encontra-se também sauvignon, marsanne, roussanne; a muscat à petits grains blancs ou rosés, e a grenache blanc são muito utilizadas para os vinhos doces naturais (VDN) brancos e entre as cepas nativas estão a gros e petit mansengs (ótimas também para VDN), a bourboulenc (malvoisie), a clairette, a mauzac e a piquepoul. Para os VDN tintos se utiliza muita grenache noir, uva introduzida na região ainda na Idade Média.
A produção do terroir languedocien se estrutura em cinco categorias: os mais comuns vins de table, os vins de pays (que passam a ser conhecidos por IGP - indication géographique de procédence - são aqueles que saem da regulamentação AOC por características culturais ou opção do vigneron), as apelações regionais (AOC Languedoc, AOC Côtes du Roussillon), apelações sub-regionais (Corbières, Minervois, Saint-Chinian, Pic-St.-Loup no Languedoc, Côtes-du-Roussillon Villages e as apelações de VDN - Rivesaltes, Muscat de Rivesaltes - no Roussillon) e apelações comunais (Banyuls, Banyuls Grand Cru, Collioure e Maury, por exemplo).
O clima mediterrâneo ensolarado dos vinhedos mais próximos à costa proporcionam uvas de ótima maturação que geram vinhos generosos, corpulentos e tânicos, embora redondos nos bons crus. Mais para o interior, principalmente em terrenos calcários, mesmo a syrah ou a carignan dão vinhos de taninos bem afinados pela mão dos bons produtores. Nos terrenos mais altos (acima de 500m) do Minervois e de Corbières o clima mais ameno resulta em vinhos mais delicados e sedosos. Antigamente, na França, se chamava pejorativamente o vinho da região de vin cuit, ou cozido, devido ao alto grau de maturação a que chegavam as uvas, o que proporcionava vinhos pesados e moles.
São inúmeros os terroirs que estão sendo disputados entre grandes grupos vinificadores e os produtores tradicionais que hoje primam pela maior qualidade, e muitos deles começam a ser conhecidos do grande público. A prefeitura de Aniane proibiu Robert Mondavi de comprar uma grande área e construir uma vinícola industrial na região do Mas de Daumas Gassac, mas algumas estrelas internacionais, entre elas o francês Gerard Depardieu e mais recentemente o casal Pitt-Jolie produzem vinhos de boutique na região.
M. Chapoutier produz ótimos e carnosos tintos nas Côtes du Roussillon Villages, como por exemplo o Bila-Haut e o Occultum Lapidem (cortes de grenache, carignan e syrah); o V.I.T. é o vinho top de Chapoutier na região e seu nome (Visitae Interiore Terrarum) corrobora o caráter esotérico e geológico do lugar, um sítio argilo-calcário com muita ocorrência de pedregulhos. Para completar a trilogia do anagrama VITRIOL (visitae interiore terrarum rectificando invenies occultum lapidem - uma máxima hermética e maçônica), recentemente Chapoutier lançou o R.I. (Rectificando Invenies), que ainda não chegou no Brasil. Na base da linha de tintos temos o Marius, corte redondo e gostoso de grenache e syrah na casa dos R$50,00.
Este carnudo tinto de M. Chapoutier é encontrado aqui

Um dos mais reputados domaines da região é o Mas de Daumas Gassac, localizado no vale do Agly, na região de Terraces do Larzac, que produz tintos e brancos vin de pays de l'Herault considerados pela imprensa especializada os grand cru do Languedoc. Realmente são grandíssimos vinhos, muito complexos devido à utilização de inúmeras uvas no seu corte, daí a sua não-inclusão na apelação. Foi seu proprietário, Monsieur Aimé Guibert quem primeiro se deu conta do valor destas terras para a vinicultura e contratou Émile Peynaud, o pai da enologia moderna, professor da Universidade de Bordeaux, para ajudá-lo a desenvolver suas vinhas e seus primeiros vinhos, nos idos da década de 1970. Tive a oportunidade de provar o Daumas de Gassac no último Encontro Mistral, onde a representante do Mas não abriu o jogo quanto ao corte do vinho, só deu umas dicas: tem cabernet sauvignon, grenache, alguma casta portuguesa, talvez tempranillo, nebiollo... São utilizadas 11 uvas na elaboração, dentre as 40 cepas que o Mas cultiva nos seus 45ha. Também o branco é um corte insólito, que contém chardonnay, viognier, manseng e alvarinho, entre outras... Eu já havia provado o Pont de Gassac, ótimo segundo vinho do Mas (cabernet, merlot e syrah -  http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/06/salut-mes-amis-esse-ai-debaixo-eu-tomei.html), o Figaro, vinho de entrada de ótima relação preço/qualidade, corte de carignan e grenache, na faixa dos R$40,00 e o muito frutado e gostoso frisante rosé de cabernet sauvignon e petit manseng elaborado por saignée. E ainda tenho na minha adega um Moulin de Gassac, varietal de syrah ainda muito jovem para provar e um Pont de Gassac blanc, que está aguardando a oportunidade.
Mas de Daumas Gassac
Esses aí já devem estar bons para beber...
Esses dois produtores são importados pela Mistral.
Da Cave Jado já provei 2 vinhos provenientes desta região, produzidas pelo Château du Donjon: Cuvée Galinières, 100% carignan, um vinho denso de aromas de frutas cozidas e especiarias, bem redondo na boca e o Grande Tradition, corte de grenache, syrah e carignan, um minervois muito aromático (frutas vermelhas e especiarias) e persistente, com taninos bem marcados e que pode ser guardado por um bom tempo ainda. 
Ainda tenho alguns exemplares da região na adega, entre eles uns Paul Mas, produtor do Pays de l'Herault que me foi muito bem recomendado (um grenache noir 2010 que já deve estar apetitoso e um carignan de vinhas velhas também 2010 que convém esperar um pouco) e espero ainda provar muito mais vinhos desta apaixonante região que ainda tem muito a nos revelar, assim como espero que os amigos tenham gostado deste post.
Outros produtores bem recomendados que encontramos no Brasil são o Château d'Aussières (Corbières - Mistral), Château des Erles (Fitou - Zahil), Domaine de Cazes (Roussillon - Expand), entre vários outros disponíveis. Com este festival Sud de France, estão pipocando novidades por aí, inclusive uns crémant de Limoux que eu ainda não tinha encontrado por aqui.
Sobre minha estada em Carcassonne, eu já havia escrito em maiores detalhes aqui: http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/06/souvenirs-de-carcassonne.html
Au revoir, mes amis! Santé!



Bibliografia:
- Vins de France et du Monde. Languedoc-Roussillon. Le Figaro e Revue des Vins de France
- Atlas Mundial do Vinho. Hugh Johnson e Jancis Robinson
- Vinhos Franceses. Robert Joseph, Ed. Zahar.
- Le Petit Larousse des Vins
Algumas fotos são minhas, outras fotos e figuras foram retiradas das publicações acima.





domingo, 2 de setembro de 2012

Bistro de Paris na Restaurant Week

Salut, mes amis!
Ontem eu e a patroa fomos fazer umas compras em SP e resolvemos jantar no Bistro de Paris, antigo Crepe de Paris, localizado numa "vilinha" super-simpática na R. Augusta.
O lugar é muito aconchegante, o atendimento como sempre é muito atencioso e as opções das cartas são apetitosas. Como estavam participando da "Restaurant Week", além do cardápio tradicional da casa, repleto de bons pratos, havia também a alternativa de um menu fixo a R$ 43,90 por pessoa, com 3 opções de entrada, prato principal e sobremesa. Na carta de vinhos, com boas opções de preço bem adequados, havia também uma proposta de harmonização de 3 taças da entrada à sobremesa: um bourgogne aligoté, um bordeaux superieur e um gewurtz meio-seco (ou meio-doce?).
Como entrada, entre a terrine de polvo, steak tartare e uma salada "du chef", escolhemos a terrine; para o prato principal havia a opção entre um entrecôte ao molho de mostarda Dijon e batata rösti, cassoulet de frutos-do-mar, ravioli de muzzarela e tomate seco à manteiga da Normandia e um risoto de canard e ameixa, o qual escolhemos; e como sobremesa tarte tatin, crèpe de nutella com banana e crème brulée, nossa preferida.
Os vinhos, neste caso fornecidos pela Chez France, harmonizaram muito bem com os pratos escolhidos: o ligeiro bourgogne aligoté Taupenot Merme '09 muito fresco e com aromas cítricos e de abacaxi combinou com a leveza da terrine temperada com estragão; o bordeax Haut Rozier '08 se mostrou um vinho bem carnudo e pela cor e pelos aromas de fruta madura suspeito que tenha uma boa participação de merlot no corte, casando muito bem com o pato e a ameixa do risoto. E para encerrar, uma copita de um Vin d'Alsace Jean Marie Haag Gewurztraminer Valée Noble '09, um vinho rico, dourado, com aromas florais e de frutas brancas, untuoso mas muito equilibrado na boca.
Terminando a belíssima refeição o garçom me disse que pode-se levar para casa qualquer vinho da carta com 30% de desconto, que seria o preço da loja. Acabei comprando uma garrafa do gewurtz para apreciar com mais calma no aconchego do lar, talvez acompanhando minha tarte tatin que a modéstia permite-me dizer que é uma maravilha.
Isto posto, continuo recomendando o Bistro de Paris aos amigos, é realmente uma ótima opção de lugar aconchegante, atendimento simpático, boa comida e bebida e preço justo, ao contrário da concorrência estrelada ali da região...
À bientôt!

La terrine de poulpe à l'estragon

La crème brulée et le gewurtz
E essa intrusa aí é a MINHA tarte tatin, que vai cair muito bem com este gewurtz...