domingo, 18 de novembro de 2012

Drouhin Beaujolais Nouveau 2012

Salut, mes amis!
Eu gosto do Beaujolais, e daí?
Não só dos crus e dos villages, do nouveau também!
Quantas vezes já não vi enófilos "sérios" ironizando o Beaujolais "suquinho de uvas" dizendo se tratar de um vinho que se vale apenas de marketing para continuar vendendo. Eu valorizo mais esse pessoal, que se vale do marketing/publicidade para manter viva uma verdadeira tradição que é o Beaujolais Nouveau do que outros produtores cuja meta é copiar Bordeaux e ter uma boa nota RP.
Cada vinho é ideal para uma ocasião. Como diz Oz Clarke, se você se imagina ereto numa cadeira, de terno e gravata, saboreando um ótimo jantar, certamente estará tomando um Bordeaux. O Borgonha te permite tirar o paletó e afrouxar a gravata. O Beaujolais, então... Esse você pode tomar descalço!
Por isso, pra mim que estou na praia, não há vinho (tinto, digo en passant) melhor que um Beaujolais Nouveau, bem fresquinho e refrescado para acompanhar as pizzas que a gente tem feito por aqui, bem como o papo furado em volta da mesa!
E viva o Beaujolais!!!
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Beaujolais é uma região ao sul da Borgonha, entre o Mâconnais e o norte da cidade de Lyon; oficialmente faz parte da região borgonhesa, embora já pertença geograficamente ao département do Rhône e não tenha tanta semelhança física ou até mesmo cultural com a Côte d'Or. Nesta região praticamente só se planta gamay, cepa "proscrita" no restante da Borgonha desde a Idade Média.
A região, composta ao todo por 60 comunas, é dividida em 3 appéllations: a AOC Beaujolais cobre todo o território e faz a distinção Beaujolais Supérieur para os vinhos de maior teor alcoólico. A AOC Beaujolais-Villages abrange as 39 comunas da porção norte da região, com sub-solo granítico, que produzem vinhos com uma qualidade média melhor que o sul, de solo calcáreo. Dentro da região norte encontram-se as dez comunas autorizadas a dar seu nome ao vinho - os crus do Beaujolais: Saint-Amour, Juliénas, Chénas, Moulin-à-Vent, Fleurie, Chiroubles, Morgon, Régnié, Côte-de-Brouilly e Brouilly.
Nesta região se utiliza um método peculiar de fermentação carbônica para se vinificar a gamay, chamado de macération beaujolaise traditionnele, no qual os cachos são colhidos à mão e lançados inteiros em uma cuba fechada hermeticamente. O peso próprio das uvas esmaga os cachos que estão mais abaixo, liberando o sumo e iniciando a fermentação. Quando a cuba atinge certo nível de calor e pressão, o gás carbônico passa a penetrar as uvas que ainda estão inteiras e as fermenta internamentem. Esta maceração tem a finalidade de extrair o máximo de cor e aroma dos bagos de gamay, cuja principal virtude é seu aroma frutado e suculento. Terminada esta etapa, as uvas são prensadas e ocorre uma segunda fermentação, desta vez provocada pela adição de leveduras. Os grandes e modernos produtores utilizam sistemas de refrigeração do mosto para obter vinhos mais frescos e furtados, enquanto que os pequenos e tradicionais preferem conduzir o processo em temperaturas mais altas para privilegiar a extração de cor e taninos, dando mais estrutura ao vinho. Enquanto os Beaujolais nouveaux são imediatamente engarrafados e postos à venda (a tradição é que na 2.a quinta-feira de novembro o vinho já esteja disponível nos bouchons - os botecos - de Lyon), os villages e os crus são elevados por uns 10 meses em barris de carvalho. Enquanto os nouveaux devem ser consumidos imediatamente, os outros Beaujolais passam bem uns 2 anos na garrafa, com exceção dos crus, que envelhecem bem de 3 a 7 anos.
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Em relação ao vinho que deu origem a este post, neste ano a publicidade da Mistral destacava que devido às condições climáticas no vinhedo, ocorreram as millerands, numerosos bagos minúsculos nos cachos de gamay, o que acabaria resultando num vinho mais fresco, elegante, denso e complexo.
De fato, na taça o vinho apresenta uma cor bem densa, com os característicos reflexos violeta. Nariz também típico de fruta vermelhas frescas, florais e um fundindo de banana. Na boca, o gostinho de tutti frutti, bubaloo de frutas vermelhas (lembram?) e desta vez percebi também alguma coisa a mais, parecido com figo maduro.
É um vinho simples na melhor concepção da palavra, como disse acima, ideal para acompanhar uma roda de bate-papo. Muito souple, como dizem os franceses, que sempre recomendam um ou outro Beaujolais para acompanhar seus pratos típicos - sempre tem um tipo que harmoniza bem com charcuterie, porco, chucrute, cassoulet e a onipresente soupe à oignons. Estou iniciando muita gente que a principio não gostava de vinho tinto com os Beaujolais, e eu acho que é esse o espirito da coisa.
Como dizem os franceses: um copo de Beaujolais nouveau violeta, de uma safra madura e bem feita, deixa ensolarado até os mais tristes dias de novembro...
Santé!

domingo, 11 de novembro de 2012

Com este calor, nada como um sauvignon...

Salut mes amis!
E fechamos hoje com chave de ouro a semana do sauvignon blanc! Digo isso porque aproveitei o calorão desta semana aqui em SP para experimentar três sauvignons que tinha aqui na minha adega.
O primeiro foi um chileno, o Ventisquero Yelcho '11 que o simpático Celso do Empório D'Vino aqui de Santo André me indicou. Nada pretensioso, depois de gelado cumpriu bem o papel de refrescar o calor e foi sorvido com sofreguidão. Aromas cítricos e vegetais - "grama cortada" - muito leve e fresco, como era de se esperar de uma linha básica de um bom produtor.
O próximo sauvignon ansiado por um longo dia e saboreado com prazer à noitinha foi um Cheverny Les Vieux Clos '10 do Domaine du Salvard, irmãos Dellaile, do Loire, pertinho de Blois, cidadezinha do famoso castelo. Na verdade este vinho é um corte de 85% sauvignon e 15% chardonnay. De uma bela e delicada cor amarela clara com reflexos verdeais muito límpida e brilhante. Com aromas florais e cítricos, de maçã verde. Na boca é muito delicado, leve, com uma acidez muito apetitosa; abriu também aromas de maracujá, vegetais - "grama cortada" - e "xixi de gato", que os anglófonos tem o bom costume de chamar de "cat box". Tudo conforme o esperado, com boa complexidade. Final médio, muito refrescante. Acompanhou muito bem uma quiche de queijo. Ótima pedida em sauvignon. Este me foi indicado pela somellière do La Régalade, enquanto fazíamos o curso da Wine & Spirits. Me lembro de ter tomado outros bons sauvignons com este nível de complexidade provenientes de Sancerre (Raimbault, Saget, Jolivet) e  e Marlborough (Vicar's Choice é um que me lembro bem).
O último sauvignon da semana foi um Arrogant Frog '10 de Jean Claude Mas, um IGP Pays d'Oc produzido em Pézenas com uvas provenientes do vale do Aude, um lugar a principio muito quente para a sauvignon (opa! novidade!). Produzido pelo domaine Paul Mas, com a "pretensão" de não ser um vinho sério, tanto que seus produtores o recomendam em seu blog como parte do kit de sobrevivência do francês no deserto de Mojave (!?). Um vinho amarelo com reflexos esverdeados, aromas cítricos, de lima, maçã e minerais. Na boca confirma a maçã, goiaba branca... Não é tão frutado quanto os sauvignons de clima mais frio, mas tem um pouco mais de corpo, é mais "gordo". A acidez é muito bem equilibrada com os 12,5% de álcool e a fruité. Este aqui acompanhou com muita propriedade um risoto margherita (e que risoto!) que a patroa fez, assim como meu saint peter à belle munière. Talvez até fosse mais adequado um vinho mais encorpado para acompanhar esta comida, mas como este sauvignon possui até umas características de chardonnay de clima quente... Caiu muito bem, talvez pela boa acidez que enfrentou o arroz cremoso e o peixe com molho oleoso... Mais um bom vinho do SudOuest de France pra anotar no caderninho.
O risoto da patroa, meu peixe e o vinho do sapo
Bem, resumindo, por grau de complexidade e tipicidade, aquele que eu mais gostei foi o Cheverny, em seguida o Arrogant e por último este Ventisquero - nada contra sauvignons chilenos, muito pelo contrário! Já provei alguns fantásticos, como os Amayna e o Casa Marin. Mas aí já é outra história... Mas também pode-se dizer que todos estes três aí de cima tem boa relação preço/qualidade, posto que o Yelcho custa praticamente a metade do Arrogant Frog, que por sua vez é mais barato que o Les Vieux Clos.
Trinquons, mes amis! Santé! 
À bientôt!