domingo, 23 de dezembro de 2012

E que venha 2013!

E para um ano que ia dar vez ao fim do mundo, 2012 até que não foi mal!
E eu escrevo este post em agradecimento.
Primeiramente, porque o ano me trouxe meu segundo filho, que junto com a irmãzinha - que está a cada dia mais mocinha e mais linda - e a patroa, sempre maravilhosa, formam a família mais linda e amada do mundo! Pessoalmente, foi tudo muito bem - em casa, no trabalho e na saúde. Nada a reclamar!
Em seguida, neste ano que passou pude me dedicar bastante a este "hobby" que nos une, a apreciação do elixir de Baco. Li muito: Jancis Robinson, Hugh Johnson, Oz Clarke, guias, Larousses, Jorge Lucki, Luiz Horta, não perdi um número da Adega ou da Wine Spectator. Acompanhei também com assiduidade os blogs dos amigos mais experientes no assunto. Fiz cursos - SBAV, WSET. Fui a feiras e degustações - Expovinis , Encontro de Vinhos e Encontro Mistral (sempre que me lembro disso me vem à boca o Hermitage La Chapelle do Paul Jaboulet Ainé que degustei na ocasião). Até fundamos uma confraria, e tivemos três ótimas reuniões temáticas: Itália, Espanha e Brasil. Ganhei presentes espetaculares, que deixaram minha cavezinha muito valorosa. Experimentei muitas coisas novas, os ótimos champagnes da Hedoniste, os grandíssimos borgonhas do Château des Vilars-Fontaine apresentados pelo Jean Claude Cara em um curso promovido pela VinhoClic, as novidades das francesas Cave Jado e Chez France, tomei gosto por xerez e porto... enfim, tanta coisa que nem dá para enumerar. 
Sinceramente torço que 2013 fortaleça as amizades criadas neste mundo enófilo durante o ano que passou. Agradeço muito aos amigos que acompanharam estas mal escritas linhas rabiscadas por este pretenso blogueiro iniciante. A participação e colaboração de todos através de comentários e compartilhamentos nas redes são o incentivo para continuar.
Trinquons, mes amis!
Às nossas casas, ás nossas famílias, aos nossos amores! 
Que tenhamos um santo Natal e que em 2013 o Grande Arquiteto nos abençoe com muita saúde para continuarmos trilhando nosso caminho neste mundo que ainda vai longe! Que tenhamos oportunidade, tempo e disposição para ler bons livros, beber bons vinhos, ter boas conversas e nos relacionar com boas pessoas. Além de educar bons filhos, que é o que deixaremos para este mundo.
Santé!!!

 





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Curso de Vinhos da Bourgogne na Enoteca Saint Vinsaint

Salut, mes amis!
No último dia 30 de novembro estive em um curso sobre vinhos da Borgonha, ministrado por Jean Claude Cara e organizado por Fabio Barnes, da VinhoClic. A palestra, de 3 horas de duração, foi entremeada por degustação de vinhos e ao final foi servido o jantar. Aconteceu na Enoteca Saint Vinsaint, no Itaim, lugar simpatissíssimo que eu prontamente me arrependi por ainda não tê-lo conhecido antes. A Enoteca é dirigida pela chef Liz Cereja e seu marido Ramatis Russo, experiente e reconhecido sommelier da paulistânia.
Jean Claude é um franco-brasileiro que transita entre a enologia, a gastronomia e o eno-turismo, dividindo seu tempo entre a Borgonha e o Brasil. Já teve um bistrô no Brasil e ultimamente trabalhava como chef em Beaune. É o enólogo-consultor do Éléphant Rouge, vinho "de boutique" produzido pela Larentis no Vale dos Vinhedos e atualmente é um produtor associado do Château de Villars Fontaine, nas Hautes Côtes de Nuits, lá possuindo uma parcela de vinhedo. Membro do bureau de vinhos da Borgonha, instituição que tem por objetivo zelar pela manutenção da tradição e da qualidade dos vinhos borgonheses. Em paralelo, desenvolve roteiros eno-turísticos e acompanha grupos em visita à Côte d'Or e adjacências.
Enfim, a respeito da qualidade deste curso, após a apresentação deste curriculum, acho que não preciso falar mais nada. Compacta, porém didática e bem ilustrada, a palestra consegue transmitir um pouco da riqueza que é o terroir bourguignon e deixar os espectadores com água na boca e  sede de saber mais. Pois segundo o próprio Jean claude, uma vida é pouco para se conhecer a fundo a Borgonha...
Mas o que mais chama a atenção no discurso de Jean é a seriedade com que o autêntico vinhateiro bourguignon busca manter a verdadeira e antiga tradição da sua terra, a primeira a desenvolver a ciência da vinificação com os monges na Idade Média. Isso em uma época de dificuldade financeira, busca de lucro rápido e globalização - já tem chinês comprando propriedades na Borgonha também - parece uma tarefa hercúlea. Diversas vezes ele destacou que regiões como Bordeaux e Champagne se renderam às especulações comerciais e isso é o que querem evitar os tradicionais borgonheses, tão ciosos de sua terra e de seus costumes. Inclusive Beaujolais foi excluída oficialmente da região da Borgonha, por este motivo. Seus conceitos, tão diferentes daqueles que a gente escuta por aqui, muitas - senão todas - das vezes baseadas nestas mesmas relações comerciais, nos faz ao menos parar para refletir um pouco. Por exemplo, enquanto por aqui não raro ouvimos que a qualidade de um vinho está relacionada com a qualidade e quantidade de madeira nova em que ele é vinificado, segundo o método ancestral borgonhês a madeira serve apenas para aparar as arestas e não deve aparecer no resultado final. Segundo ele, madeira em excesso certamente está escondendo um defeito grave do vinho, assim como fruta em excesso logo no primeiro nariz, muitas vezes "artificialmente" obtida.
Saí deste curso com uma certeza: preciso muito rever muitos conceitos.

O primeiro vinho degustado foi este Chablis Premier Cru "Fourchaume" '06.  De um branco dourado, como de se esperar bastante mineral, mostrou também frutas cítricas, abacaxi, muito fresco, corpo e final médios.
O segundo foi este communale Mersault, que  demonstrou aroma floral, de frutas cítricas, um pouco de mel e baunilha.
Este Pommard de um rubi muito claro demonstrou frutas vermelhas, destacadamente framboesa  e couro. Muito equilibrado com taninos muito finos.
Quanto aos vinhos do Château de Villars Fontaine, propriedade dirigida por Bernard Hudelot, maior autoridade francesa nos estudos do vinho em relação à saúde, os amigos me permitam uma série de licenças poéticas, pois traduzir em palavras as sensações despertadas é impossível - passarei por mentiroso ou ao menos exagerado! Tamanhas as nuances demostradas pelos vinhos, que às vezes parecem até contraditórias. Estes vinhos produzidos à l'ancienne tem como característica uma maturação prolongada - cerca de 28 dias - e a qualidade obtida compensa o risco que o vinhateiro corre por optar por este processo.
O pinot noir "Les Genévrières" '02 demonstrava uma bela cor rubi clara, muito límpida e transparente e não apresentava o mínimo sinal de evolução. Após a aeração o vinho explode em aromas que eu só consigo traduzir me imaginando na Côte d'Or, em uma manhã ensolarada, sentindo o cheiro das frutas no pé e da terra molhada. Embora elevado por 36 meses em barricas novas, não há traço de madeira no nariz ou na boca. A madeira tem a serventia  de arredondar o vinho, que apresenta taninos muito afinados (os taninos são bem presentes devido à longa maceração, e junto com a ótima acidez proporcionam este vinho, de longuíssima guarda com certeza). Ouvi en passant um comentário de Ramatis para Jean Claude sobre o vinho: "esse é uma obra-prima".

Pinot noir "Les Genévrières"
O mais surpreendente veio em seguida: um gamay "du Futur", safra 2003, de uma belíssima cor rubi-púrpura, vivíssima e muito límpida, ainda sem halo de evolução. Este gamay é elevado por 48 meses em barricas novas, sendo que no segundo ano as barricas são trocadas (200% barricas novas!). Segundo Jean Claude, seria necessário morrer e nascer de novo para verificarmos o envelhecimento deste vinho. Disse ainda que o vinho leva este nome pois, baseado em estudos climáticos, sabe-se que a cada 400 anos aproximadamente há um ciclo no aquecimento global e antigamente havia na Borgonha o revezamento do plantio da gamay em épocas mais quentes e pinot noir em períodos mais frios. Espera-se que nos próximos séculos a gamay volte a ser a estrela na região. Para quem não acreditava na longevidade desta cepa e sua capacidade de gerar grandes vinhos...
Se ao provar o pinot noir eu já me senti teletransportado às encostas douradas da Borgonha, com este vinho, então, me senti no interior de uma daquelas tradicionais lojinhas de geléias e cremes de frutas no interior das Hautes Côtes, onde tem sempre um tacho fumegante repleto de cassis, framboesas, amoras ou mirtilos apurando no fogo. Os aromas de frutas do bosque e do bosque em si, geléias de frutas, indescritível... o vinho ainda muito jovem, que certamente ainda despertará muitos aromas terciários, mostra ao mesmo tempo corpo e redondeza, os taninos bem extraídos mas arredondados pela elevagem que não deixa rastro da madeira... Pour amour du ciel!
Gamay du Futur
Esses dois tintos acompanharam o prato principal servido, um boeuf bourguignon, enquanto que para a harmonização com o queijo servido na sobremesa (um manchego meio curado, na indisponibilidade do comté, que seria o ideal) foi servida a estrela da noite, um chardonnay "Les Jiromées", de uma parcela nas Hautes Côtes a qual já solicitou a qualificação de cru no INAO (um processinho destes dura anos...).
Já nem digo que foi surpreendente, porque depois dos dois últimos, podíamos esperar tudo! Este vinho é vinificado em barricas, onde fica por 24 meses. De cor amarelo palha, apresenta aromas cítricos, mas também de frutas brancas, maçã, pera, pêssego, noz, macadâmia, de vegetais frescos, como aspargo e alcachofra, mel... na boca é fresco, mas é também untuoso, tem ótima acidez e corpo, equilibradíssimo, tem um final longuíssimo... Jean disse que este vinho venceu degustações à cegas como famoso montrachet. Eu não conhecia um vinho tão grande, apesar de ter provado ótimos Corton Charlemagne, Mersault, Puligny-Montrachet e outros Côtes de Beaune quando estive na Borgonha. E só agora entendo perfeitamente o siginificado do termo "complexidade" em uma análise sensorial.

"Les Jiromées"

Como disse anteriormente, talvez tenha passado por exagerado ou mentiroso, mas como diz um texto que está rolando pela net, creditado ao grande Luís Fernando Veríssimo: "Já disse mais bobagem sobre vinhos do que sobre qualquer assunto (...) Isso porque é impossível transformar em palavras as qualidades ou defeitos de um vinho, ou as sensações que ele provoca, assim como é impossível, por exemplo, descrever um cheiro e um gosto. Tente descrever o sabor de uma amora. Além de amplas e vagas categorias, como "doce", "amargo", "ácido", etc., não existem palavras para interpretar as impressões do paladar. Estamos condenados á imprecisão ou ao perigoso terreno das metáforas. Tudo é literatura."
Então termino ao menos com uma boa (ótima) notícia: em abril os vinhos do Château de Villars Fontaine devem estar disponíveis no Brasil, por um preço menor que imaginam.


Os donos da festa

Santé, mes amis!