domingo, 13 de janeiro de 2013

E começo o ano com Vale do Loire





Salut, mes amis!
Depois de um curto período sabático durante as férias de final de ano, longe de computadores e outros gadgets, volto a escrever uma nova postagem. E o assunto escolhido foi o Vale do Loire, mesmo tema que ficou definido para a próxima reunião da nossa confraria. E como sou quase ignorante nesta região – também – fui pesquisar alguma coisa cujas impressões tentarei transmitir nas próximas linhas (só não digo que sou um completo idiota no assunto porque tive o prazer de conversar um pouco e degustar com duas atuais expressões da região no último encontro Mistral – Mme. Saget e Mr. Pascal Jolivet – veja o post: http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/07/virei-fa-do-ciro-lilla-encontro-mistral.html).
O Vale do Loire, região de história e culturas riquíssimas, considerada “o jardim da França” devido às belas paisagens e castelos construídos às margens do rio ao longo dos anos, é uma das mais setentrionais regiões vitícolas da França, disposta praticamente no paralelo 47, saindo do centro do hexágono e se dirigindo a oeste até a foz atlântica do rio, próxima à cidade de Nantes. Acima dela, apenas a Alsácia e a Champagne. É a região francesa mais “esparramada” em termos geográficos, se alongando por uns 500km às margens do rio, que é o mais extenso em território francês. Ali se encontra uma variedade muito grande em termos de vinho. Por isso a região é dividida em sub-regiões com características semelhantes, cada uma contendo diversas apelações.

Mapa das regiões vinícolas da França - tudo o que é verde claro no centro do mapa é Vale do Loire

A primeira região a oeste, próxima à foz do rio no Oceano Atlântico, é o Pays Nantais, também chamada de baixo Loire, dentro da qual fica o muscadet, apelação de um vinho branco leve e às vezes bastante neutro, com uma certa nota de maresia que o torna um vinho ideal para acompanhar frutos do mar. Muscadet é o nome do vinho, não é nome de uma localidade tampouco da cepa, que é chamada melon de bourgogne, uma “prima” da chardonnay. Da melon e bourgogne são esperados vinhos pálidos com reflexos verdeais na sua juventude, aromas de flores e frutas brancas e cítricas, além da mineralidade e de um fundo meio “salgado”, de iodo. Alguns produtores tem engarrafado seus muscadet diretamente do barril de fermentação, sem filtragem, buscando uma maior densidade aromática – é o chamado muscadet sur lie (sobre as borras). Também é comum neste vinho um resquício de fermentação na garrafa, aprisionando um pouco de gás carbônico que provoca a sensação de “ponta de agulha” na língua, tal como os vinhos verdes portugueses. Um bom exemplar das características descritas acima e já provado aqui pelo humilde "blogueiro" é o Selection des Cognettes, muscadet de sèvre-et-maine (região entre os rios de mesmo nome, afluentes do Loire), produzido pelo Domaine des Cognettes e importado pela Cave Jado.

Muscadet de sèvre-et-maine sur lie "Selection des Cognettes", Domaine des Cognettes

Seguindo para leste, logo se chega à região d’Anjou-Saumur, “ponta-esquerda” do Loire Central, ao sul da cidade de Angers. Aqui começa a ser plantada a chenin blanc, cepa branca característica do vale que dá origem a diversos tipos de vinho. Da chenin se espera vinhos ricos, de um amarelo que se intensifica com o passar do tempo, passando pelo dourado e chegando ao âmbar acobreado nos grandes vinhos doces; deve apresentar grande expressão aromática, apresentando aromas florais, frutas brancas como a pera e o marmelo, praliné, baunilha e mel. Tradicionalmente lar de grandes vinhos doces, nas últimas décadas os vinicultores da região aprimoraram a produção de grandes e expressivos brancos secos. Na periferia da cidade de Angers se encontra a pequena apelação de Savennières (cerca de 35 hectares), que tem como principal expressão Nicolas Joly, o antigo profissional do mercado financeiro que resolveu desestressar, comprou La Coulée de Serrant, um minúsculo cru de 5 ha, aplicou ali as técnicas do biodinamismo e desde então produz brancos considerados magníficos, estando entre os melhores do mundo na opinião de quem já teve a oportunidade de prova-los. 
Um parêntese: o biodinamismo é um método desenvolvido por um filósofo austríaco, Rudolph Steiner, no séc. XIX, que procura tratar cada pedaço de chão como um organismo no qual todos os elementos vivos – o solo, inclusive – devem se sustentar mutuamente; adota práticas medievais como o respeito às fases da lua no manejo dos vegetais e tratamentos fito-homeopáticos para tratamento das plantações no lugar do uso de fertilizantes e defensivos industrializados. 
Mais a sudeste ficam as regiões Coteaux de l’Aubance e Coteaux du Layon, dois afluentes do Loire. Ambas produzem vinho branco de chenin e nos bons anos também produzem bons brancos doces, como nos enclaves de Quarts-de-Chaume e Bonnezeaux, vinhedos com a encosta voltada para o sul, o que garante uma ótima insolação e uma sobrematuração ideal para a elaboração de grandíssimos vinhos doces, que podem durar décadas na garrafa mantendo o frescor. A região d’Anjou também é famosa pelos rosés, desde o mais simples, suave e adocicado Rosé d’Anjou, elaborado com a cepa indígena groslot, também chamada grolleau, que aos poucos vem sido substituído pelo mais pretensioso e mais seco Cabernet d’Anjou, à base de cabernet franc. Estes rosés tem uma grande paleta de cores, desde os mais pálidos de cor de cebola, passando pelos rosas mais claros até uma cor cereja-clara, apresentando principalmente aromas de morango e framboesa.
Um pouco mais para o interior temos a região de Saumur, onde o negócio dos espumantes (crémant de Loire) começa a ficar mais sério. Esse vinho pode levar chenin blanc proveniente de toda a região do Loire, o que é muito importante para os produtores nos anos em que as bagas não atingem o grau de açúcares necessário para a elaboração de um vinho mais sério. O assemblage destes vinhos armazenados nas caves subterrâneas de Saumur garantem um produto de qualidade boa e constante. Em Saumur também se produz vinho tranquilo branco (chenin), rosé e tinto (cabernet), sendo que este último atinge o maior nível de qualidade na apelação de Saumur-Champigny.
Seguindo mais para o leste, bem no centro do Loire se localiza a região da Touraine, ao redor da cidade de Tours, que se subdivide nas apelações mais famosas de Bourgueil, St.-Nicolas-de-Bourgeuil, Chinon e Vouvray. Estas três primeiras tem a fama de produzir os melhores tintos da região, à base de cabernet franc, conhecida também no local como breton. Hugh Jonhson e Jancis Robinson, em seu “Atlas Mundial do Vinho”, consideram que em relação à substância e estrutura destes vinhos em bons anos (quando pode ser comparado aos bons Bordeaux), eles são extremamente subestimados, o que resulta numa ótima relação qualidade/preço (dizem que há uns 100 anos os Chinon eram classificados e cotados como equivalentes aos Margaux). A cabernet deve resultar em vinhos densos mas límpidos, de uma cor rubi profunda com reflexos violáceos. Devem apresentar os aromas característicos de pimentão, especiarias, cassis, framboesa, alcaçuz (sinceramente não conheço), quiçá um pouco de rosa, violeta, cacau e balsâmico, além de um odor áspero de “lápis recém-apontado”, conforme Mrs. Robinson. Os vinhedos de Chinon localizados sobre as areias e graves (pedregulhos) das margens do rio tendem a produzir um vinho mais redondo, enquanto que o solo mais escarpado e calcário de Bourgueil e St.-Nicolas-de-Bourgueil produzem vinhos mais encorpados que podem evoluir mais em garrafa. Em Vouvray, na margem norte do rio,  a chenin é um pouco mais ácida que em Anjou, o que pode lhe proporcionar uma longevidade incomum. Ali se produz crémant e vinhos tranquilos secos, meio-secos e doces. O clima é muito variável e apenas as safras mais ricas levam o nome dos crus que se localizam nas encostas. Tem como principal expoente o Domaine Huet, cuja propriedade Le Mont é considerada o melhor terroir da apelação desde o séc. XVII e cujo enólogo Noël Pinguet utiliza os métodos biodinâmicos.  A periferia desta região pode produzir vinhos leves das três cores provenientes de outras cepas, principalmente das pinots noir, meunieur e gris, gamay e sauvignon blanc, rotulados sob o nome Touraine. Ao norte da Touraine localizam-se as apelações de Coteaux du Loir (sem o “e” mesmo), Jasnières e Coteaux du Vendômois, que produzem secos e leves chenin bem como leves tintos e rosés provenientes da cepa local chamada Pineau d’Aunis.
Provei ultimamente dois vinhos desta sub-região, um Bourgueil "genérico" de Guy Saget, safra 2010, e o Chinon "Les Varennes du Grand CLos" do Domaine Joguet, safra 2008. Os dois demonstraram as características genéricas conforme citadas acima, com a ressalva que as notas de pimentão se revelam na forma de um pimentão mais suave, vermelho, e não rascante e vegetal como o pimentão verde. Como também era de se esperar, o Bourgueil, mais simples, apresentou menos camadas aromáticas que o Chinon, proveniente de um só cru, que demonstrou aromas de frutas negras, cravo, violeta, uma pontinha de chocolate e um pouquinho de madeira, tipo "caixa de charuto"; com taninos e acidez ótimos, que me deixaram muito curioso para comprovar como deve envelhecer bem este vinho.

Corte geológico transversal do Vale do Loire, entre St.-Nicolas-de-Bourgueil e Chinon

Bourgueil Guy Saget '10

Chinon 'Les Varennes du Grand Clos" Domaine Joguet '08

Mais para o leste, em direção à histórica cidade de Orléans, entramos no alto Loire, passando primeiramente por Blois, cercada pelas apelações de Cheverny e Cour-Cheverny, onde começa a ser utilizada em larga escala a sauvignon blanc, ao lado da cepa local romorantin em Cour-Cheverny, além de outras como a chardonnay e chenin. Também produz um pouco de rosé e tinto de gamay, cabernet franc, pinot noir e côt (malbec). Daqui já provei um ótimo Cheverny, sauvignon “arrematado” com 15% de chardonnay que deu um pouco mais de corpo e "gordura" no resultado final, muito bom vinho (veja http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/11/com-este-calor-nada-como-um-sauvignon.html). No Loire a sauvignon apresenta notas de cítricos e de melão, flores e condimentos, longe dos aromas de cat box e aspargos, que aqui só aparecem nos vinhos de uvas colhidas muito cedo; também é comum a nota mineral de sílex (pedra de isqueiro), nos vinhos provenientes dos vinhedos situados nas colinas a oeste de Sancerre. E ao final da região, na “ponta-direita”, localizam-se as apelações singulares de Sancerre e Pouilly-Fumé, terra do refrescante, fragrante, frutado e mineral branco proveniente principalmente de sauvignon (a chasselas também é permitida) e dos rosés e tintos de pinot noir. As principais expressões aqui são o Silex, vinho com forte caráter mineral de Didier Dagueneau, excêntrico produtor ripongão falecido em um acidente de ultraleve em 2008 (um dos primeiros a utilizar fermentação em barricas novas na região), cuja propriedade segue tocada pelos filhos e cujo vinho atinge grande valor no mercado, bem como o Domaine de Ladoucette, em Pouilly-Fumé, que produz vinhos altamente reconhecidos no seu Château du Nozet, propriedade mais célebre da região, tipo castelo-de-contos-de-fadas.

Ótimo Sancerre também importado pela Cave Jado - deste mesmo produtor também provei o tinto de pinot noir: http://conservadonovinho.blogspot.com.br/2012/07/sancerre-raimbault-pinot-noir.html
 
Concluindo, o desafio do próximo encontro da nossa confraria é encontrar no Loire um vinho que harmonize com pasta ao molho de limão siciliano com presunto parma, lá do Empório D'Vino, local onde ocorrem os encontros (http://www.emporiodvino.com.br/), sempre acompanhados de ótimas massas. Por sugestão do Epifânio Galan, do blog VinhoSIM (http://www.vinhosim.com.br/), devemos tentar um branco, pois os tintos já provados não foram tão bem. O desafio está lançado...
À bientôt, mes amis! Santé!



BIBLIOGRAFIA
- Atlas Mundial do Vinho (Hugh Jonhson e Jancis Robinson).
- Le Petit Larousse des Vins.
- Vins de France et du Monde – Loire (La Revue du Vin de France e Le Figaro).
- Vinho (André Dominé).
- Gosto e Poder (Jonathan Nossiter).
- Vinhos Franceses (Robert Joseph).

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