quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Visita à De Martino

Salut les amis!
Em minha recente visita à Santiago demos uma volta pelo Vale do Maipo a fim de conhecermos três vinícolas e a primeira escolhida foi a De Martino, localizada a uns 50km a sudoeste da capital. Marcamos esta visita logo pela manhã, às nove horas, pois no caminho de volta, durante o dia, ainda passaríamos por Concha y Toro e Almaviva. Posso dizer que a visita a esta vinícola de origem italiana foi a mais surpreendente das três.
Há 75 anos no Chile sob a direção de uma mesma família de origem italiana (já é a quarta geração que começa a comandar a vinícola), recentemente a De Martino deu uma reviravolta na sua vitivinicultura e, a partir de 2004, sob a batuta de Marcelo Retamal e sua equipe de enólogos, adotou uma condução mais natural do vinhedo que, aliadas à outras práticas na cantina, buscam resultar em vinhos mais puros e representativos do terroir. Tal trabalho teve o auxílio imprescindível de Pedro Parra, o "Dr. Terroir", geólogo consultor que há tempos escava poços no Chile estudando a composição do solo para melhor adaptação das cepas ao terreno.
Calicata no vinhedo de Santa Inês
Chegando à propriedade de Santa Inês, sede da vinícola, na localidade de Isla de Maipo, fomos atendidos por Maria Jesús, que primeiramente nos conduziu a um vinhedo de sangiovese. Ali ela nos demonstrou a calicata, um poço escavado através do qual o Dr. Parra estuda a composição do sub-solo. Neste caso, um solo aluvional bastante profundo, com grandes seixos rolados, do tamanho de uma grande pedra-de-mão (nós, pedreiros, chamávamos outrora de pedra-de-mão aquela utilizada nas antigas paredes de cantaria, quando o companheiro segurava a pedra bruta a ser assentada com uma das mãos e a trolha com argamassa na outra). Isso se deve ao fato de uma grande parte do vale do Maipo ter sido antigamente leito do rio, que corria em meandros pela região rolando as rochas vulcânicas provenientes da Cordilheira dos Andes. Como este solo praticamente não retém água, é necessária a irrigação por gotejamento, duas vezes por semana, durante dez horas cada vez. A mangueira de irrigação é amarrada nas estacas sob o arame inferior de condução das vinhas, que são podadas em lira. 
Vinha de sangiovese conduzida em lira
A guia explicou ainda que no Chile os vinhedos são plantados nas direções norte-sul ou leste-oeste, de acordo com outras características do terroir como inclinação e exposição ao vento e que este vinhedo particularmente foi originalmente plantado, há uns dez anos atrás, em uma direção errada (norte-sul). Depois fiquei sabendo que a intenção da vinícola era colher a sangiovese sobremadura para fazer um vinho doce tipo vin santo mas os bagos não atingem o grau de maturação adequado para isso neste vinhedo. A De Martino atualmente trabalha para converter seus vinhedos em orgânicos, e o primeiro passo foi utilizar apenas adubo proveniente de compostagem de matéria orgânica (o material mais escuro no pé das vinhas na foto acima). O vinhedo é bonito, entremeado com plantação de flores, que tem o intuito de antecipar a ocorrência de doenças como o míldio, que afeta antes as flores que as vinhas, possibilitando assim um tratamento natural, reduzindo ou até eliminando o uso de defensivos químicos.
Em seguida fomos conhecer o processo de produção do vinho, com destaque para a minuciosa seleção dos bagos, que passa por duas esteiras de triagem e seleção dos bagos maiores com utilização de um soprador de ar. Bagos pequenos, que resultam em mais açúcar, cor e tanino ao vinho, são descartados (!) e seguem junto com os engaços para a compostagem. Segundo Maria Jesús, a política da empresa é deixar de fazer vinhos "Pamela Anderson" - exuberantes mas artificiais - para elaborar vinhos tipo "Natalie Portman", de beleza e elegância intrínsecas e naturais.
Esteiras de triagem 

Prensa hidráulica
Das mesas e triagem em diante os bagos são conduzidos por uma tubulação resfriada por uma solução refrigerante (glicol), a fim de se evitar a oxidação e manter o frescor da uva. Depois de prensados, os bagos maceram em cubas de inox e algumas linhas de vinhos descansam depois em carvalho. Barricas bordalesas usadas ainda são muito utilizadas com o intuito de amaciar o vinho pela microoxigenação - os enólogos não desejam uma interferência notável da madeira nas características organolépticas do vinho. Tanto que ultimamente compraram uma boa quantidade de foudres, enormes barris austríacos de carvalho alemão com 5000 litros de capacidade, com a intenção de diminuir a superfície de contato do vinho com o barril.
Foudres
Vista geral do chai de barricas
Visitamos depois o chai onde são guardadas as tinajas - grandes ânforas de barro que a De Martino comprou nos rincões do Chile, onde também descobriu vinhas velhas de cinsault, no Vale do Itata, com as quais produziram um vinho pelo método ancestral. Os cachos são lançados dentro da ânfora, que é lacrada com filme plástico, e lá dentro sofrem a maceração carbônica disparada pelo peso próprio dos bagos. Depois os sólidos são separados do mosto em fermentação, que volta para maturar nas tinajas, agora lacradas com barro. Eu já havia provado este vinho no Brasil, mas nesta visita tivemos a oportunidade de degustar um "Viejas Tinajas" Edición Especial, safra 2012, corte de cinsault com carignan provenientes do vale do Maule, e na ultima safra também vinificaram um branco de moscato. São mesmo vinhos surpreendentes - embora este tipo de maceração proporcione vinhos frutados e muitas vezes leves (caso de muitos beaujolais, por exemplo), neste caso o vinho tem um corpo muito bom e uma textura licorosa na boca, mesclando muito bem a fruta com o gostinho terroso proporcionado pelas tinajas.
Vinho em fermentação nas tinajas
Na degustação após a visita à produção degustamos também um ótimo chardonnay da linha Legado,  um gran reserva do Vale del Limarí, safra 2011, que demonstra o frescor deste vale, que embora seja mais ao norte do Valle Central é mais frio, pois se encontra onde a cordilheira da Costa perde altitude e permite que o vento frio vindo do oceano, resfriado pela corrente de Humboldt, crie um terroir mais fresco onde as uvas tem maior dificuldade de atingir uma sobrematuração, mantendo bastante acidez. Este vale também foi área oceânica num passado distante, então o solo, além dos aluviões, também é composto por muita matéria calcária proveniente de fósseis marinhos. Isso confere ao vinho um caráter mineral muito intenso, gosto de giz, aliado a aromas de frutas cítricas e tropicais, terminando em um pouquinho de mel. Uma delícia. 
Provamos também um inusitado corte de cerca de 60% malbec, 30% carmenère e o restante de diversas uvas, de um single vineyard chamado Las Cruces, no Vale do Cachapoal. Digo inusitado porque esta porcentagem é aproximada, visto que o vinhedo foi plantado com várias cepas juntas, aleatoriamente, então a colheita e a vinificação é feita toda junta e misturada. Vinho de grandes nuances aromáticas, e boa estrutura. Todos estes vinhos tem uma ótima relação qualidade/preço, e estão disponíveis para venda no Brasil (são importados pela Decanter).
E para terminar a visita, pudemos faz nossa própria assemblage, utilizando três vinhos da linha 347 Vineyards - um syrah, um carmenère e um cabernet sauvignon. Até que o meu corte ficou gostosinho, um blend de syrah com cabernet sauvignon com uma pitada de carmenère para dar uma "adoçada" no conjunto. Engarrafamos, arrolhamos, colocamos a cápsula e a etiqueta e voilà! Criamos cada um de nós uma garrafa do "Mio", que trouxemos para casa, junto com mais algumas garrafas e souvenirs da simpática lojinha da vinícola, entre esses uma miniatura de tinaja.
A Alessandra fazendo sua assemblage

Colocando a rolha utilizando uma ferramenta antiga
Digo que esta visita foi a mais surpreendente que fiz à vinícolas chilenas pois esperava algo antigo, tradicional, mas logo que chegamos vimos instalações modernas, galpões novos, novíssimas cubas de inox e foudres de carvalho, com uma produção de 16 milhões de garrafas/ano, mais de 90% voltadas à exportação, além de que pudemos constatar uma mentalidade inovadora, com o propósito de chacoalhar o cenário vinícola chileno em busca de identidades locais, e não apenas em busca de blockbusters, como fazem outras tantas vinícolas chilenas.
Au revoir! Santé!


2 comentários:

  1. Amigo, boa noite, como fez para agendar a visita ? e o translado ? estou indo em junho agora e essas vinícolas estão em minha lista de visita, agradeço caso possa me ajudar.

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    Respostas
    1. Olá Takeo,
      No mesmo dia da visita à De Martino fomos também à Concha y Toro e à Almaviva, todas no vale do Maipo. Contratamos o serviço de van com a Sousa's Tour (info@sousastour.com), e eles fazem um ótimo serviço, inclusive tem motorista e guia em português, se necessário. Eles também fizeram a nossa reserva para a visita à CyT, com desconto no valor. Quanto à De Martino e a Almaviva, eu fiz o contato diretamente pelo site das vinícolas para agendar a visita - www.demartino.cl e www.almavivawinery.com
      Um abraço e boa viagem!

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