quinta-feira, 22 de maio de 2014

Diário de Viagem - dia 5 - Châteauneuf-du-Pape (Parte 1 - Château du Beaucastel)

Salut les amis!
Hoje saímos cedo do hotel com destino à Courthézon, um village a aproximadamente 30km ao norte de Avignon, fazendo o percurso pela auto-estrada A7, a Autoroute du Soleil, que liga Marseille à Lyon. Às 10 horas tínhamos visita marcada no Château de Beaucastel. Chegamos adiantados e ficamos esperando um pequeno grupo de turistas alemães que iriam fazer a visita conosco. O guia, Gabriel, se desdobrou para falar em francês e em um inglês impecável também... 


Começou explicando que é funcionário da 5.a geração da família Perrin, proprietária do château. Beaucastel domina sobre 100ha de vinhedos nesta região, dos quais 75ha estão classificados como Châteauneuf-du-Pape e 25ha como Côtes-du-Rhône. Na hierarquia das apelações na região do Rhône, Côtes-du-Rhône são a base da pirâmide, depois temos os Côtes-du-Rhône villages (que destacam no rótulo a localidade de proveniência), e no topo os "crus", entre os quais está Châteauneuf-du-Pape. Praticamente tudo que vimos a oeste da estrada entre Avignon e Châteauneuf é AOC (apelação de origem controlada) Châteauneuf-du-Pape.


Gabriel explicou que Jacques Perrin, patriarca da família, foi um pioneiro no cultivo biológico, depois biodinâmico na região, desde a década de 50. Neste dia pudemos presenciar, visitando o vinhedo,  um dos fenômenos que permite a adoção deste tipo de cultivo no vale: o mistral - vento violento e seco que sopra a partir dos Alpes nesta época do ano e que mantêm as vinhas livres de fungos em um período crítico, da floração ao crescimento e amadurecimento dos bagos. Também foi ele que reintroduziu no Rhône meridional a mourvèdre, uma cepa tradicional na assemblage (corte, mistura) do CDP mas considerada difícil para a região. Na costa do Mediterrâneo ela atinge a maturidade com perfeição e dá bons rosés como em Bandol, mas no vale do Rhône, só como comparação, enquanto colhem syrah em agosto, a mourvèdre só é colhida em meados de outubro. M. Perrin também teria reinvestido na plantação de roussanne, uma cepa branca que entra tanto na assemblage dos Châteauneuf tintos como brancos.



Beaucastel utiliza todas as treze cépages (cepas) permitidas no corte de seus Châteauneuf-du-Pape, quais sejam: as tintas grenache, syrah, mourvèdre, cinsault, counoise, muscardin, terret noir e vaccarèse e as brancas grenache blanc, clairette, bourboulenc, picardin, picpoul e a roussanne (a grenache tanto tinta como branca são contadas uma só vez - mas na verdade são catorze uvas diferentes...). Elas são vinificadas separadamente em cubas de concreto ou carvalho, depois passam pela assemblage e pela élévage (criação, amadurecimento) em foudres (grandes barris) de carvalho. Ali os vinhos passam em torno de um ano, sendo então engarrafados e guardados por mais um ano antes de ir para o mercado.
O vinho Côtes-du-Rhône, em Beaucastel chamado de Coudoulet, passa praticamente pelo mesmo processo, se diferenciando do Châteauneuf por ser proveniente daqueles 25ha de vinhedos não classificados e ser feito com menos cepas, principalmente grenache, syrah, mourvèdre e cinsault, e de vinhas mais novas que as utilizadas para o Châteauneuf, que tem entre 45 e 85 anos! Com as vinhas novas da região de CDP, Beaucastel produz uma cuvée especial "famille Perrin", envelhecida em barricas pequenas de carvalho.


Em seguida, em visita à cave, degustamos 6 vinhos, sendo o primeiro um Châteauneuf-du-Pape branco, jovem (safra 2012), assemblage das cepas brancas permitidas para este vinho, que estava bem fresco, com frutas brancas e mineralidade, e sinceramente foi engolido pela segunda amostra: um CDP mono-varietal (de uma só uva), roussanne, velhas vinhas (45 a 85 anos!), que demonstrava aromas de frutas de caroço e tropicais - abacaxi, manga, damasco - e uma densidade volumosa na boca, uma delícia! Enquanto o primeiro cairia bem com um peixinho mais delicado, no máximo uns saint-jacques, o último deve ser uma beleza acompanhando mariscos, lagosta...


Nos tintos começamos pelo Coudoulet 2011, um vinho leve e redondinho, com aromas de geléia de frutas vermelhas, ameixa e pimenta, com taninos bem finos. O Châteauneuf-du-Pape 2011 já ajunta aromas mais concentrados de frutas vermelhas, ameixa seca, chocolate, tomilho e alcaçuz, mas ainda está na mais tenra infância... O exemplar da safra 2006 mostrava tanino ainda mais presente que o 2011, com mais caráter de fruta madura e mais especiarias, o que nos faz deduzir um ano muito quente; esse vai longe, e Gabriel confirma dizendo que estes CDP atingem o auge entre 10 e 25 anos de idade, mas recentemente ele tomou um 1964 que ainda estava bem vivo! Em seguida fez uma brincadeira e abriu uma garrafa de CDP sem rótulo, muito fresco e frutado, para que adivinhássemos o ano da colheita. Ninguém acertou que era um 2001...


Terminamos a visita a este belo château com umas comprinhas - afinal ninguém é de ferro - e nos dirigimos rapidamente para o centreville, pois tínhamos outra visita marcada para depois do almoço.
Santé, les amis! Au revoir!




4 comentários:

  1. As publicações que tem sido postadas aqui tem sido muito boas e enriquecedoras, e sintetizam o que é o vinho: história, geografia, arte e cultura em estado líquido, se convertendo na digital do sabor!

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  2. Perfeito, Nilson! E minha intenção ao escrever este blog é esta mesmo: despertar esta vontade de trocar experiências entre nós, amantes de vinho, que além de tudo é cultura e na Europa é um item básico da alimentação cotidiana... Um dia chegaremos lá! Obrigado pela visita ao blog, em breve vem mais por aí, abraço!

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  3. Carlos Eduardo
    você conhece algum vinhedo nas proximidades de Nice ou St Tropez. Terei estas duas bases na minha visita em setembro, e gostaria de visitar uma vinícola.
    Grata
    Renata

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  4. Renata, primeiramente obrigado pela visita ao meu blog.
    Eu havia pesquisado um roteirinho eno-turístico para esta região, mas como ficamos tão pouco tempo em Nice infelizmente não tivemos tempo de fazê-lo... Esta região é tão bela quanto desconhecida de nós, brasileiros, então o pouco de informação que obtive foi através de blogs de enófilos franceses.
    Eu sugeriria sair de Nice com destino a Saint Jeannet, bem pertinho, para fazer uma visita no Domaine de las Hautes Collines, na apelação Bellet, que é um tipo muito peculiar de vinho (os vinhos doces são elevados ao sol em bombonas de vidro, o que lhes dá um caráter um pouco oxidativo). Em seguida passaria por St.-Paul de Vence, que dizem ser uma cidadezinha linda e onde há mais duas vinícolas interessantes: o Domaine La Vasta e o Mas Bernard. Saindo de St.-Paul você pode aproveitar e passar por Grasse (famosa por seus perfumes, sede da Parfumerie Fragonard) ou seguir sentido Antibes e pegar a A8 para chegar em St.-Tropez. Se você fala um pouco de francês, tranquilo, o pessoal do sul é bem simpático e prestativo, você fará estas visitas tranquila; senão, faça uma pesquisinha no site destas vinícolas ou no site www.vigneron-independant.com, se eles atendem em outro idioma.
    Mais para a frente, a 85km sentido Marseille, encontra-se a cidade de Bandol, famosa por seus rosés e tintos estruturados à base de mourvèdre e grenache, principalmente. E também existem ótimas opções de visitas a vinícolas mais para o interior da Provence, mas aí acho que já foge muito do seu roteiro.
    E se você fizer este roteiro ou parte dele, aguardo novamente sua visita aqui para me contar como foi, afinal ainda pretendo fazê-lo um dia! E tenho certeza que você adorará a Provence!
    À disposição,
    Carlos

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