segunda-feira, 26 de maio de 2014

Diário de Viagem - dia 6 - Norte do Vale do Rhône (Parte 1 - Hermitage - Paul Jaboulet Ainé)

Salut les amis!
Hoje o dia foi duro! Tivemos que acordar cedo para partir em viagem até Tain l'Hermitage e agora, já tarde da noite, tentarei transcrever aqui um pouco das experiências pelas quais passamos durante o dia, me desculpem se o cansaço me fizer atrapalhar com as letras...
De Avignon a Tain l'Hermitage levamos mais ou menos uma hora e meia para percorrer os 150km entre as duas cidades, transitando pela Autoroute A7, a auto-estrada que liga Marseille a Lyon, quase sempre margeando o Rhône em sua margem oriental, a rive gauche (esquerda), posto que o rio corre do norte para o sul. Ele nasce nos Alpes e vai desembocar no Mediterrâneo, ao sul.
Depois que passamos por Châteauneuf-du-Pape, de Montélimar até a altura da cidade de Valence a vinha praticamente desaparece da paisagem. Neste trecho vemos muitas florestas, indústrias e cultura de outras frutas, mas os vinhedos só reaparecem na margem direita do rio na apelação de St.-Péray. Em seguida vem Cornas, St.-Joseph e, no mesmo lado do rio que a auto-estrada, Crozes-Hermitage; até o ponto em que o Rhône faz uma curva abrupta e já podemos ver, da estrada mesmo, a imponente colina de Hermitage.
Havíamos marcado uma degustação às 10h30 na loja da Paul Jaboulet Ainé, chamada Vineum, uma mistura de bar-à-vins, restaurante e magasin desta tradicional Maison da região, que foi fundada em 1834. Hoje ela está sobre controle da família Frey, de Champagne, e é a jovem enóloga Caroline Frey que comanda este negócio, entre outros (por exemplo o Château La Lagune 3ème cru classé bordalês).




Fomos muito bem recebidos pelo sommelier da casa, o simpático Guillaume, que nos contou um pouco da história da Maison e conduziu uma degustação de seis vinhos. Enquanto servia o primeiro vinho, o Châteuneuf-du-Pape blanc Domaine de Terre Ferme 2010, ele nos contava que Paul Jaboulet Ainé possui 120ha de vinhas, a maioria no norte do Rhône, repartidos entre Hermitage, Crozes-Hermitage, Cornas, St.-Joseph, como também alguns hectares no Sul, nas apelações de Côtes du Rhône e mais recentemente Châteauneuf. Explicou ainda que a Maison adotou um estilo mais fresco nos vinhos brancos, fazendo sua vinificação em cubas de inox ou de concreto, de forma oval, o que facilita a suspensão das borras do vinho (les lies), auxiliando a transmissão aromática das partículas sólidas para o vinho. De fato, o vinho servido, de bela cor amarela com reflexos dourados, ainda dá boa mostra de frescor, com aromas de pêssego, damasco e abacaxi, abrindo depois um pouco de mel e manga, com corpo médio, boa densidade e acidez ainda bem presente, o que leva a crer que é um vinho que suporta uns 10 anos de guarda. É uma assemblage de 80% grenache blanc e 20% clairette.
O segundo vinho provado foi um Condrieu Domaine des Grands Amandiers 2012, 100% viognier como determina a apelação, amarelo palha, com aromas de pêssego branco, damasco, maracujá e flores brancas; boca fresca com um pouco de mineralidade, um pouquinho de açúcar residual, com um final bastante perfumado e um pouco cítrico. 
Enquanto servia o terceiro vinho, o Hermitage blanc Chevalier de Stérimberg 2011, o sommelier nos deu uma aula de história, contando que o vinho, assim como a colina, recebe este nome em homenagem a um cavaleiro que, retornando da cruzada albigense, que no século XII combateu os hereges cátaros na região do Languedoc a mando do papado de Avignon, transformou este território em seu eremitério, ali construindo uma capela que dá nome ao mítico vinho que já foi considerado um dos dez maiores da história - o Hermitage La Chapelle safra 1961. Explicou ainda que a Maison possui em Hermitage 28ha de vinhas, sendo 23ha de syrah e 5ha de cepas brancas. O corte do vinho branco é de 2/3 de marsanne para 1/3 de roussanne, o que resulta em um vinho amarelo dourado, com lágrimas densas, e que abre aromas de abacaxi em calda, pêssego e mel, e segundo o sommelier com o tempo mostra nozes, amêndoas e aromas oxidativos. Ainda jovem, tem um caráter fresco, com bom corpo e retrogosto de mel, bastante longo. Sugere-se uma guarda de dez anos.


Partimos para os tintos com um Châteauneuf-du-Pape Domaine de Terre Ferme rouge 2009, um vinho de cor rubi bem profunda com reflexos violeta, aromas de geléia de frutas vermelhas e negras, ameixa fresca, pimenta e azeitona preta, bastante caloroso na boca, com taninos bem marcados, boa acidez e final especiado, apimentado. Este vinho é uma assemblage de 80% grenache e 20% mourvèdre, que passa por extração lenta em tanques de inox e matura por um ano em fûts (barricas de 225lts.) de carvalho francês, russo e americano, de 20 a 25% novos e o restante de segundo ou terceiro usos. A Maison Jaboulet só utiliza os tradicionais foudres e cubas tronco-cônicas de maior capacidade para seus vinhos de entrada.
O quinto vinho provado foi um Côtes Rôtie Domaine des Pierrelles 2009 - 100% syrah. A apelação toda tem apenas 130ha de vinhas, dois quais Jaboulet possui somente 3, desde esta safra de 2009. O surpreendente nesta apelação é que ela permite que os vinhos sejam suavizados com até 20% de viognier. De cor rubi muito profunda com reflexos violeta, que apresenta aromas de fruta negra, cedro, chocolate, cravo, herbáceo (é difícil definir este aroma sem antes ter conhecido um bosquezinho - a garrigue - desta região sul da França ou uma épicerie da Provence, onde os aromas de carvalho, alecrim, lavanda, tomilho, pinheiro, entre outros se misturam...). Na boca é caloroso mas aveludado, com taninos bem presentes e final especiado, prolongado. Esta safra foi muito quente, o que ficou claro nestes dois últimos vinhos, bem encorpados e com taninos firmes. Guillaume disse que a colheita teve que ser feita muito rapidamente para que se mantivesse um bom nível de acidez, o que faz pressupor a guarda destes vinhos para mais de quinze anos, quando poderão despertar aromas terciarios de cacau, café e estrebaria.
O último vinho da degustação foi o Hermitage La Petite Chapelle 2007, o "segundo vinho" da Maison produzido comunas provenientes da colina. Em alguns maus anos, o La Chapelle nem é produzido e toda a colheita vai para o La Petite. Este vinho mostrou uma bela cor rubi/granada, com lágrimas lentas, densas e coloridas. Os aromas são parecidos com o vinho anterior, mas bem mais concentrados, mostrando fruta mais madura, um pouco de cedro e baunilha, defumado e já um pouco de couro. Muito encorpado e maduro na boca, aveludado, com um longo e apimentado final. Este vinho passa de 15 a18 meses em barrica. A Maison possui diversas parcelas em Hermitage, o que pudemos conferir à tarde quando subimos à colina, com diversas características de solo, drenagem e insolação, e esses dois vinhos são assemblages dessas diferentes parcelas.


Terminada a degustação, almoçamos ali na Vineum também, com um menu harmonizado com os vinhos. Para o aperitivo, foi servido um amuse bouche à base de beterraba, acompanhado do St.-Joseph blanc Le Grand Pompée 2012, 100% marsanne. A entrada de gazpacho e o prato, filé com molho cremoso de manteiga e erva-doce foi harmonizado com um Crozes-Hermitage tinto Domaine de Thalabert 2010, mas a surpresa veio no final: para acompanhar um prato de queijos regionais, Guillaume apareceu com uma garrafa do La Chapelle 2001, simplesmente divino, a quintessência da syrah. Sem mais comentários.


Depois do almoço fizemos umas comprinhas e subimos à colina de Hermitage, afinal não podíamos deixar de registrar nossa visita em uma das mais icônicas paisagens do universo do vinho. E seguimos viagem, pois os cães ladram e a caravana não para...
Santé les amis! Au revoir! 










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