terça-feira, 27 de maio de 2014

Diário de Viagem - dia 6 - Norte do Vale do Rhône (Parte 2 - Cornas - Jean Luc Colombo)

Salut les amis!
No caminho de volta de Tain l'Hermitage à Avignon paramos em Cornas, pois ali tínhamos visita marcada no domaine de Jean-Luc Colombo. Monsieur Colombo é daqueles franceses que preferem ser do que parecer, pois seu domaine é bem simples e despojado, tanto que sua cave nem é aberta a visitas porque não é muita arrumadinha, segundo diz seu próprio pessoal. Ele é amigo pessoal de Paul Bocuse, chef de cuisine mega-estrelado, e por sua dedicação à boa mesa e aos bons vinhos é um dos poucos "não-cozinheiros" pertencente ao grupo "Chefs des Chefs", congregação dos maiores nomes da cuisine française. É tão prestigiado que chega a atrair Bocuse e outros chefs para um festival que promove anualmente em sua propriedade em Cornas, ocasião em que ocorrem banquetes e até um concurso temático de sommelierie.
Aqui cabe um adendo: a cave não é arrumadinha mas é bem limpinha. Jean-Luc ganhou fama no vale do Rhône nos anos 80 justamente na sua atuação como enólogo-consultor de diversas vinícolas, onde constatou e corrigiu um grave problema de higiene que afetava a qualidade dos vinhos ali produzidos. Colombo vem do ramo farmacêutico, e ele e a esposa pertenceram à primeira turma com formação superior em enologia na França. Como o pessoal por ali utilizava os grandes foudres, muitas vezes por décadas, havia um problema de higienização, o que ele foi aos poucos abolindo com o uso mais intensivo do aço inox e das barricas pequenas, mais "descartáveis", digamos, que as grandes cubas e foudres de carvalho. Com o tempo ele foi adquirindo alguns vinhedos, outros ele contrata por comodato, e foi formando assim seu próprio domaine.



Foi a assistente pessoal de Colombo, Fanny, que nos acompanhou em uma visita ao vinhedo de Ruchets, uma escarpa bem íngreme da colina de Cornas, onde os vinhedos tem que ser trabalhados em terraços arrimados por muros de pedra para evitar a erosão. Ela nos explicou que o solo é de base granítica, de um estrato muito maleável e mesmo frágil e quebradiço nas mãos, o que forma na superfície uma areia que facilita a drenagem e estressa a vinha, que tem que procurar água nas camadas inferiores. Este vinhedo é orientado face sul e ela também nos explica que esta região está localizada no cruzamento do clima mediterrâneo com o clima continental, a uma altitude de 300 até 400m do nível do mar. Isso faz de Cornas, como Hermitage ou Côtes Rôtie, terroirs únicos extremos para a extração do que melhor a syrah pode produzir.  O nome Ruchets vem das colmeias de abelhas que existiam neste terreno antigamente, "les abeilles" que também estão presentes no nome de um Côtes du Rhône produzidos pela casa.
Desde que possui estes vinhedos, meados da década de 1980, Colombo conduz as vinhas da forma mais "biológica" possível, pois entende que a vinha deve interagir com o ambiente, com a garrigue, os animais silvestres, para exprimir bem o terroir. Mas apenas recentemente, quando sua esposa Anne e sua filha Laure passaram a conduzir mais de perto o negócio da família elas insistiram para que buscassem a certificação "bio", o que só ocorrerá na safra de 2015 pois deve ser decorrido um período mínimo de cinco anos observação para que essa certificação seja concedida pela autoridade francesa.


Retornando à Maison, Fanny conduziu uma degustação de seis vinhos, sendo o primeiro um Côtes du Rhône blanc Les Abeilles 2013. Os vinhos brancos da casa apelam para o frescor, a maioria é vinificada e elevada em inox e apenas a roussanne costuma passar algum tempo em foudre de madeira. Este vinho é um assemblage de clairette com pouca roussanne, o que resulta num vinho bem cítrico, maçã verde e frutas brancas. Ela conta que Colombo sempre elabora seus vinhos pensando em um prato para a harmonização, e este iria muito bem com ostras ou peixes delicados. O segundo vinho, um Côtes du Rhône blanc La Redonné 2013, assemblage de 70% viognier com 30% roussanne,  já é mais encorpado, tem aromas de pêssego, damasco e flores brancas, é um pouco mais gordo e já suporta acompanhar de um peixe mais gorduroso até carnes brancas. O vinho seguinte foi um Condrieu Amour de Dieu 2012  que tem mesmo um nome bem apropriado, porque é divino! De cor amarela com reflexos verdeais, tem aromas de damasco, pêssego, abacaxi em calda, florais, erva-doce. Na boca é super redondo, mas com uma fineza... Fanny disse que esse vinho, com cinco ou sete anos de idade, começa a amostrar deliciosos aromas de mel e amêndoas.
Partimos para os tintos degustando um Crozes-Hermitage Les Fées Brunes  2011, de uma profunda cor púrpura com bordas rubi, aromas de geléia de morango, framboesa, cravo, cedro e uma pontinha de chocolate. Na boca é caloroso mas bem arredondado, mostrando muita fruta e finalzinho apimentado. Fanny contou que o nome do vinho é homenagem a uma amiga de Colombo, a mesma que elabora os desenhos em aquarela para os rótulos de seus vinhos, todos belíssimos, diga-se en passant. Em seguida provamos o Cornas Terres Brulées 2011. Cornas na língua celta quer dizer terra laranja, terra queimada. E esse terroir pode ser mesmo comparado com Hermitage e a Côte Rôtie quanto a diversas características em comum, sendo considerados informalmente os três "grand crus" tintos do Rhône setentrional. Um vinho de cor profunda, aromas de frutas vermelhas e negras confitadas e especiarias, um vinho com grande estrutura e que certamente não se abrirá tão cedo, demorando uns bons 10 anos, talvez até mais, para atingir seu apogeu. E o último vinho da degustação foi um Cornas Les Ruchets 2008, vinho que, segundo Fanny, embora tenha sido produzido em um ano de má safra, foi um dos mais belos resultados da casa, pois houve um cuidado todo especial na colheita e na triagem dos bagos (só foram utilizados os menores), o que resultou num dos melhores vinhos do ano na região, demonstrando toda a diferença que faz a habilidade de um bom vinicultor. O vinho é muito estruturado, tem uma grande presença de taninos mas muito, muito bem equilibrada pela fruta e alto grau de acidez. Tem aromas de fruta negra, garrigue, tostado, e com certeza depois de alguns bons anos, vai se abrir e se revelar um vinho grandioso.
Concluímos a visita agradecendo toda a atenção de Fanny e sua equipe, e a ótima recepção que nos proporcionaram em Cornas. Realmente estes são vinhos que deveriam ser mais conhecidos do público brasileiro, afinal aliam o que este público gosta (fruta e calor), com a elegância que poucos terroirs do "Novo Mundo" proporcionam.
Au revoir! Santé!




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