quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Soirée da missão Bourgogne-Brasil no Bravin

Salut les amis!
Tive a honra de ser convidado para um jantar oferecido pela missão do Office de Tourisme da Bourgogne em São Paulo, que aconteceu no último dia 10 de fevereiro em São Paulo. Recebi este convite do amigo Jean Claude Cara, recentemente  nomeado embaixador para as relações Bourgogne-Brasil, a respeito de quem já falei bastante aqui no blog. Estiveram presentes empresários, profissionais do vinho e da gastronomia, jornalistas, blogueiros e curiosos interessados como eu, enfim, todos amantes desta região francesa e que de alguma forma buscam mais conhecimento sobre este lugar encantador.
Muito boa oportunidade para conhecer o Bravin, ótimo restaurante, super-simpático e aconchegante, de onde saí com ótima impressão e onde pretendo voltar em breve (nesta ocasião não tivemos oportunidade de experimentar sua adega - com exceção ao bom espumante rosé Cave Amadeu que serviram de boas-vindas - pois a missão ofereceu vinhos da Bourgogne para acompanhar o jantar).
O grupo é composto por Emmanuelle Hervieu, chefe de marketing do Office de Tourisme departamental, Jean Claude Bernard, do hotel Le Cep, tradicionalíssimo hotel localizado no centro de Beaune, Thomas Beaulaton, do Office de Tourisme de Beaune, responsável pelas relações com a América do Sul, além de Stéphanie Gaitey, representante do grupo Bernard Loiseau de hotéis e restaurantes consagrados na França.
Após uma bela exposição de Jean Claude sobre o "terroir" bourguignon (ele explica que a palavra "climat" é muito mais adequada à região do que "terroir") e as empresas participantes da missão, ele preparou e serviu aos presentes o kir - bebida criada por um antigo prefeito de Dijon, o abade Kir, que um dia teve a feliz ideia de adoçar e fortificar seu vinho aligoté com o puro e maravilhoso creme de cassis da Bourgogne. Neste caso, Jean preparou a bebida utilizando um ótimo crémant (espumante) de Bourgogne, comparável mesmo aos bons champagnes.
Em seguida, para acompanhar o amuse bouche (ostra "Bravin", com cebola roxa, broto de coentro e vinagrete de romã) foi servido o Chablis grand cru Bougros Domaine du Colombier 2011, um vinho extremamente mineral, um aroma de giz e fruta cítrica subindo pela taça, depois um pouquinho de fruta branca e talvez mel, muito fresco e "crocante" na boca, destacando um gostinho de maresia que casou muito bem com o iodo da ostra e o agridoce da cebola e do vinagre de romã.
Como entrada foi servido um prato que me fez voltar no tempo: sardinha em escabeche, acompanhadas por um Chassagne-Montrachet premier cru Les Baudines, Domaine Jouard, 2011. Para um prato mais estruturado, um vinho idem. Com passagem em barrica, deixou claro aromas doces de baunilha, flores e frutas brancas, amêndoas e uma ponta de mel, e surpreendeu pela boca que desmentiu o nariz, muito seca, com ótima acidez, fresca mas ampla, com um bom final e que acompanhou bem a sardinha.
Ponto alto do jantar, o bouef bourguignon criativamente abrasileirado e cuidadosamente preparado harmonizou com um Mazoyères-Chambertin grand cru Domaine Taupenot-Merme 2007, na minha opinião o melhor vinho da noite. Geleia de frutas vermelhas, couro e especiarias, pimenta e até uma pontinha de alcaçuz (!?) lá no fundo da taça. A boca, ampla e aveludada, demonstrou também taninos bem afinados e um final bem prolongado.

Em seguida foram servidos dois queijos típicos da região - o époisses e o brillat-savarin - acompanhados de pain d'épices e harmonizados com um Pommard La Chanière de Cathetine et Claude Maréchal, 2010. Sinceramente eu esperava um vinho mais "raçudo", mas este Pommard em especial apareceu bem frutado e leve. Conhecemos então uma tradição do bourguignon que, antes de sair no inverno para o trato das vinhas, "fortificava" seu copo de vinho tinto adicionando creme de cassis, surgindo assim o "communard". A harmonização já estava boa, mas Jean ainda me surpreendeu me dando um pouco do Chassagne que tinha ficado em sua taça para eu experimentar com os queijos - simplesmente divino! Lembrei das harmonizações anteriores que fizemos com o Château de Villars-Fontaine Les Jiromées com queijos.

 
De sobremesa, um maravilhoso manjar de coco, que também recebeu como "calda" o creme de cassis. E antes do café foi servida a ratafia, uma indescritível aguardente (eau de vie!) de uva (marc de Bourgogne), dourada, envelhecida, adoçada com suco de uva não-fermentado e que fica durante 15, 20, 30 anos guardada em carvalho, sendo que todo ano se retira uma pequena quantidade para consumo e se completa a barrica, sucessivamente. Tradicionalmente este licor era servido no ato em que acordos eram selados, por isso o nome, ratafia, que vem de ratifier (ratificar).


Ao final do jantar  nos restou agradecer ao convite, pois foi uma noite realmente memorável e se a intenção destes franceses era demonstrar um pouco mais da sua rica cultura e despertar em alguns brasileiros a vontade de explorar um pouco mais e estreitar os laços com sua belíssima região, certamente atingiram seu objetivo, e eu espero com este post humildemente colaborar um pouco com eles!
Santé! Au revoir!