quarta-feira, 27 de maio de 2015

Nicolas Joly Clos de la Bergerie 1990 no Ici Bistrô

Salut les amis!
Hoje vou lhes falar um pouco de outra grande experiência que a enofilia me proporcionou - pela primeira vez, experimentei um vinho produzido pelo francês Nicolas Joly, um dos pioneiros da utilização do biodinamismo na cultura da vinha e produção de vinhos no mundo.
Mas o que é o biodinamismo? É basicamente uma doutrina naturalista que procura extinguir a utilização de qualquer produto químico ou manejo artificial nas culturas e produções agrícolas. Formulada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner no início do séc. XX, ainda hoje a agricultura biodinâmica é olhada com certa desconfiança por uma grande parte de produtores e até mesmo consumidores, visto que algumas de suas práticas se parecem mesmo com esoterismo ou xamanismo. Joly é famoso por observar a influência do ciclo lunar e estelar sobre seus vinhos, bem como aspergir nas vinhas um defensivo natural cultivado em um chifre de vaca enterrado e desenterrado em determinada fase da lua, e depois atomizado como se fosse medicamento homeopático - enfim, pode parecer mesmo uma tremenda frescura, mas os adeptos do biodinamismo são fanáticos defensores dos benefícios dessa tese.
A propriedade de Nicolas Joly em Savennières, no vale do Loire, chamada de Château de la Roche aux Moines, engloba o famosíssimo vinhedo "Coulée de Serrant", de onde ele extrai um néctar que é tido pelos especialistas como um dos cindo maiores vinhos brancos do planeta, e é uma das menores apelações monopole (vinhedo de um só proprietário) da França, com 5ha de área. Para muitos destes enófilos, este  vinho é a prova mais concreta do sucesso da cultura biodinâmica (biô, como dizem os franceses). A propriedade também engloba o Clos de la Bergerie, AOC Savennières Roche-aux-Moines, além de vinhedos dos quais ele produz o Les Vieux Clos, apelação Savennières.
Savennières é um pequeno vilarejo situado na margem direita do Loire, lado oposto à mais conhecida região de Anjou, à jusante de Saumur, na porção central do rio. Tem como diferencial uma topografia escarpada voltada para o sul, o que favorece o perfeito amadurecimento das uvas no hemisfério norte. Nessa região, utiliza-se a chenin blanc para a produção de vinhos brancos e em nenhum outro lugar essa uva chega a tamanha concentração aliada à acidez muito alta, o que gera vinhos muito estruturados e longevos. Diz-se que estes vinhos atingem seu apogeu ao atingirem um certo grau de oxidação, o que pode levar muito, muito tempo.
No vale do Loire em geral a chenin blanc, quando cultivada em rendimentos corretos e bem vinificada, exprime aromas de maçã verde, de flores brancas e de giz. Embora possua boa acidez, muitas vezes ela é atenuada pela fermentação malolática e pela prática da bâtonnage, prática que deixa o vinho mais "gordo", mais redondo. As uvas mais maduras denotam mel de acácia, brioche, marmelo e pêssego branco, podendo ainda atingir aromas de abacaxi, e creme quando atacadas pela podridão nobre, lembrando mesmo os aromas do Sauternes. A convenção reza que vinhos secos de chenin blanc - caso dos Savennières - harmonizam com saladas, pratos leves de peixes e carnes brancas leves.


Levei uma garrafa do Clos de la Bergerie 1990 para acompanhar um jantar no Ici Bistrô, em Higienópolis (como sempre digo: para ocasiões especiais, vinhos especiais...). Como diz a anedota, liberei um gênio da garrafa! É um vinho de uma linda cor amarela com nuances douradas, límpido e brilhante, com muitas lágrimas densas e transparentes no copo. Enquanto o sommelier abria a garrafa (a rolha, um pouco deteriorada, me deu certa apreensão...), os primeiros aromas já pairavam sobre a mesa, nos inebriando e fazendo intuir um vinho doce... marmelada, mel de acácia, pera. 


O primeiro gole é sublime, toda a sensação olfativa de doçura sutilmente se transmuta (foi minha primeira sensação de que o biodinamismo é mesmo um pouco de alquimia) em um palato seco, fresco, mineral, com pouco açúcar residual. Continua abrindo, e abrindo, e abrindo... aromas de abacaxi, figo cristalizado, baunilha, trufa branca, pedra de isqueiro... é muito complexidade! Tem um final muito longo e frutado, tendo acompanhado muito bem desde a entrada - uma vichyssoise (sopa fria de creme e alho poró) com ostras - até o prato principal - no meu caso, arraia com creme de mexilhões e legumes, e camarões à provençal para a minha mulher. Ótimos pratos, ótimo casamento com o vinho, um ambiente super-aconchegante... saímos do Ici maravilhados nessa noite!



Se dizem que para aproveitar bem este tipo de vinho, o ideal é que ele estivesse mesmo um pouquinho oxidado, para que libere toda a sua complexidade aromática, lamento. Pelo que eu vi - meu deus! - teria ainda que esperar muito tempo guardando essa garrafa, que já tinha 25 anos, para que esse ponto chegasse. Outros dizem que esse vinho deve decantar durante muito tempo - mesmo de um dia para outro - antes de ser degustado. Neste ponto eu desafio quem consiga abrir uma garrafa dele a esperar tanto tempo para bebê-lo após sentir seu bouquet!
À la prochaine! Santé!

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