sábado, 17 de outubro de 2015

Cavisteria no Bravin - degustação de safras antigas da Borgonha

Salut les amis!
Afinal, o que é vinho? Qual é a importância desta bebida para os homens e para as sociedades nas quais está inserido, desde tempos remotos acompanhando sua civilização e evolução?
Muito se discute a respeito do vinho, principalmente depois que ele se tornou um modismo e agora tenta se consolidar no cotidiano do consumo das famílias brasileiras. Se fala de castas, métodos de vinificação, harmonizações... Mas poucas vezes tive oportunidade de observar um debate sobre as questões filosóficas acima. Exceção feita a um livro do filósofo britânico Roger Scruton (Bebo, logo Existo), pouca informação além do trivial chegaram aos meus olhos ou ouvidos.
Na última semana eu e minha esposa participamos de uma exposição de vinhos "vieux millésimes" da Borgonha, promovida por Jean Claude Cara, proprietário da Cavisteria - loja de vinhos antigos em Beaune, no coração da Côte d'Or - e embaixador do escritório de turismo da Bourgogne no Brasil. "Wine geek", como o definiu um dos confrades presentes nessa noite, Jean Claude se mudou há alguns anos para a Borgonha e foi acolhido por Bernard Hudelot, ex-professor de enologia da Universidade de Dijon e um dos precursores dos estudos das relações entre vinho e saúde. Hudelot é considerado um dos maiores especialistas no assunto da França e, como proprietário do Château de Villars-Fontaine, nas Hautes-Côtes de Nuits, é um dos últimos bastiões do método ancestral bourguignon de vinicultura - plantio de baixo rendimento, prensagem com engaços,  maceração longa e longa élévage em barris de carvalho.
Poderia aqui comentar sobre a ótima degustação dos vinhos de safras tão antigas que eu ainda nem tinha nascido quando foram elaborados. Escreveria muitas linhas sobre maceração, fermentação, aromas secundários, terciários, frutas confitadas, framboesa, cassis, sous-bois... Também poderia discorrer sobre a queda de paradigmas que se pode constatar ao se degustar um "simples" vinho village (a apelação mais básica da Borgonha), da safra 1974, que evolui na garrafa muito melhor que um "grand cru" mais jovem. Ao final poderia concluir descrevendo o ótimo jantar (como sempre) servido no Bravin. Mas prefiro registrar a profunda satisfação que senti ao saber que ainda existem pessoas que, à parte terem o vinho com ganha-pão, ainda tem paixão e prazer em expor e - por que não? - transmitir seu conhecimento e suas sinceras impressões sobre esse assunto que se tornou hobby e paixão de tantos enófilos Brasil afora.
Na minha opinião, o principal momento da noite foi quando a sommelière Daniela Bravin, dona do restaurante e uma das mais consagradas profissionais do vinho do país, sentou-se com o grupo e, durante a exposição de Jean Claude sobre vinho e saúde, começou a trocar com ele impressões sobre o mundo do vinho. Falaram sobre modismos (vinho laranja, biodinamismo, vinhos naturais), a formação dos profissionais do vinho - que não ajuda em nada na formação de uma cultura consumidora da bebida, com consumidores críticos - e os interesses comerciais que sempre se impõem nesses modismos, como as cartas de vinho em geral embasadas em subsídios e outros jabaculês que monopolizam o gosto do consumidor.
Saí de lá feliz por saber que não estou sendo totalmente enganado (é assim que me sinto quando em um restaurante me apresentam uma carta repleta de rótulos manjados com o preço quatro vezes maior que o valor do vinho), afinal ainda existem profissionais que prezam servir um produto autêntico, colocando de lado modismos e tapeações - e com alguns argumentos a mais que corroboram a tese de Roger Scruton. Se por um lado o vinho foi fundamental para o desenvolvimento da cultura ocidental - porque desde a Grécia Antiga, passando por Roma, Idade Média e Renascimento - fez socializar, aflorar as ideias e fluir a filosofia, por outro lado também foi importante pois de fato auxiliou na saúde dos indivíduos: quando elaborado da forma ancestral, o vinho é a melhor forma já criada pelo homem de extrair e manter em boas condições de consumo os anti-oxidantes naturais tão necessários para a manutenção do nosso corpo. 
E eu saúdo os profissionais que, com muita abnegação, se esforçam para transmitir a verdadeira cultura vinícola, acima de todas as dificuldades que conhecemos tão bem.
Santé! Au revoir! 





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