quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Vinícola Guaspari: os intrépidos bandeirantes paulistas estão de volta!

Salut les amis!
Eu já havia ouvido falar (e bem) destes vinhos, então num dia desses, em uma visita ao St.Marché, eis que eles estavam lá, com uma ação de marketing de ponto-de-venda até meio agressiva, com uma etiqueta dizendo, mais ou menos assim: "prove e descubra porque estes vinhos brasileiros estão na prateleira dos franceses", além de umas menções de medalhas em concursos no exterior... bem, vamos lá! Passe uma garrafa do branco (sauvignon) e do tinto (syrah) pra cá que vou experimentar. O preço é meio salgado para um vinho nacional, mas a curiosidade matou o guarda... Afinal, estes vinhos são provenientes de um local meio inusitado (Espírito Santo do Pinhal, na porção paulista da Mantiqueira). E paulista sabe fazer bom vinho? rsrs
O governador Alckmin presenteou Nicolas Sarkozy, em sua visita ao Brasil, com vinhos da Guaspari (cometeu dessa forma uma pequena gafe, porque Sarkô não bebe - deve ser o único francês que não bebe vinho - inclusive leiloou muita coisa da adega do Palácio do Eliseu quando presidente). E não é raro ver na imprensa fotos de personalidades com uma garrafa desta vinícola na mão. Fazem um bom trabalho de divulgação, story telling e RP.
Provei primeiro o sauvignon, da safra 2012. De uma cor amarela clara e brilhante, o vinho tem uma certa complexidade aromática: cítricos (limão siciliano), herbáceos (aspargos, erva-doce), sobre uma cama mineral e um fundinho intrigante, torrado. Na boca tem um pouco de densidade, mas é refrescante como - na minha opinião - todo sauvignon deveria ser, com boa acidez e um equilíbrio muito bom. Me lembrou os vinhos de uma obscura região francesa, os Saint-Bris, que, embora localizem-se geograficamente na Borgonha, produzem apenas varietais de Sauvignon, em um clima mais frio que a Côte d'Or. Entendi então o porque dos prêmios na França - lá eles preferem um sauvignon mais austero, mais crocante, sem a exuberância da fruta madura (maracujá, lima) tão encontrada nos vinhos do Novo Mundo, principalmente no Chile e na Nova Zelândia. Tomei este vinho como aperitivo, ele cai muito bem com canapés, mas fiquei com vontade de prová-lo com frutos do mar.


Dias depois abri o tinto, um syrah "Vista da Serra", safra 2011. Sempre falei pra patroa que, se um dia eu fosse plantar uva lá pelos lados do nosso cafofo na mantiqueira, a cepa escolhida seria a syrah. O solo granítico pobre, as grandes inclinações, o sol acachapante de dia e o friozinho à noite... Essa paisagem e esse clima fazem lembrar demais o vale do Rhône! E eu também acho que foi este o estilo pretendido na vinificação deste tinto. Austero, sem exageros ou arestas, um syrah muito correto. Na sua cor rubi-púrpura bem densa e profunda, nos aromas de geleia de frutas vermelhas, amora e ameixa, com um fundinho de copo com café, defumado e um vegetal, tipo resina. Na boca é direto e elegante, com taninos bem apontados e bastante equilibrado, com boa acidez. Final especiado de pimenta preta, com um toque de cravo. Bebi acompanhado de pizza, mas também iria bem com massas, carnes grelhadas ou preparações com cogumelos. Interessante notar nos dois vinhos as notas de café, torrefação, lembrando o passado cafeeiro da região.


A considerar estas duas amostras, o projeto é bastante promissor, merece e parece que vai evoluir. O syrah é bem caro, de uma relação qualidade/preço complicada, pois encontramos ótimas opções importadas a um preço mais baixo. Torçamos para que a vinícola encontre um ponto de equilíbrio melhor nesta questão para que mais enófilos brasileiros possam provar deste terroir inusitado.
Fora isso, lamento ainda não poder fazer uma visita aos vinhedos da Guaspari. Estávamos - eu e um grupo de amigos - interessados em dar um pulo lá para conhecer, mas ao entrar em contato com a vinícola recebemos a informação que eles tem planos de preparar instalações mais adequadas ao "eno-turismo", mas não agora... uma pena! Mantiqueira e vinho combinam muito bem!
À bientôt!


3 comentários:

  1. Pois é, se o Primeira Estrada foi criticado pelo preço de estreia (na época entre 70 e 80 reales), esse então...
    Fiquei interessado no SB... Pagaste quanto?
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Felipe, o sauvignon foi comprado por R$89,00 e o syrah, R$129,00
    Abraço!

    ResponderExcluir
  3. Muito interessante. Não conhecia o vinho mas já tinha ouvido falar quando um amigo, enófilo das antigas ai de SP, entrou em contato e me direcionou a provar, pois durante os últimos anos comercializando e degustando vinhos, sempre tive como bandeira a desmistificação de rótulos, marcas, glamour, status, salto alto, enfim. Rótulos tem gosto de tinta, papel, poeira e dedo, se formos lambe-los é claro. Bebemos vinho, o líquido que encerra em si; geografia, história, arte, sacrifício e muito mais. Bem recebi o vinho desconfiado do preço, e pensava: vinho brasileiro a este preço? Quando provei os 2012 de dois vinhedos, caiu a casa e me vi com o mesmo pensamento pré-concebido que tento o tempo todo remover. Quando tirei as rolhas e os aromas invadiram a atmosfera, e quando o líquido tocou as papilas, para mim veio algo como a redenção: mais de uma década colocando vinhos brasileiros junto a vinhos de diversas localidades pelo mundo afora e atestando seu valor, e agora os Guaspari me desconcertaram. Naquele instante, para mim, figuravam junto aos grandes do mundo, com personalidade e sem timidez. Chegaram ao topo! Dias depois de minha publicação no face do Armazém Conceição, nossa loja, a revista Decanter os colocou também no topo.
    Pura felicidade.
    Abraço!

    ResponderExcluir

Já que você suportou ler até aqui, por favor deixe sua impressão, comentário, sugestão, palpite, imprecação...